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06 março, 2013

Outros tons de cinza

Chávez: Ame-o ou odeie-o!  

Ou não: apenas “reposte” o que chegar a suas redes sociais. 

Mas num olhar mais crítico, até que dá pra entender e reconhecer a importância política da figura de Hugo Chávez. E até reconhecer seu destaque na política internacional, em especial no papel da América Latina.

Quase sempre visto pelas pessoas e pela mídia sob a ótica do bipolarismo: esquerda versus direita, bom versus mal, comunismo versus capitalismo, mocinhos versus bandidos, isso se reflete nas minhas redes sociais hoje. Defensores ferrenhos de um lado (inclusive com teorias de conspiração de que o câncer tenha sido causado pelos Estados Unidos, aparentemente iniciadas pelo próprio governo Venezuelano) versus acusadores de outro (incluindo piadas dizendo que o câncer foi bem vindo, e que alguns – 2 - líderes brasileiros deveriam seguir o exemplo).

E não só nas redes sociais digitais não, também nos corredores e no café durante o dia de hoje ouvi um monte de coisas esquisitas sobre o assunto. Todos cheios de razão em comemorar a morte desse demônio louco.

Eu acho bem foda esse negócio de alta polarização ideológica, embora admita que no caso do chavismo na Venezuela isso tenha sido um elemento de coesão interna. Mas por outro lado essa polarização e simplificação causa amores e ódios (acho o último algo mais prejudicial que o primeiro) que cegam um pouco e acabam dificultado uma análise racional. O mesmo acontece com a Cuba de Fidel, o "Imperialismo Yanque" americano, ou até mesmo a Argentina de Perón. Pra ficar só na América. 

E a visão da maioria da população acaba sendo apenas aquela passada e influenciada pela grande mídia que fatalmente e via de regra segue a linha editorial/ideológica de um dos lados desse bipolarismo. Afinal, nem todos se interessam por história ou geografia, ou por lerem diversas fontes – e não tem nada errado nisso.

Então, motivado mais pelo que estou ouvindo nos corredores e elevadores do que por qualquer coisa, resolvi falar também. Meio como uma catárse, saca? Mas, prolixo que sou, faço isso na forma de um textão, claro (espero que de vez em quando alguém leia). 

Vou tentar mostrar que a figura dele tem certa importância mas tentando basear um pouco em fatos históricos, e análises políticas, tentandome livrar um pouquinho daquela ideologia bipolar. Sei que é impossível alguém escrever um texto sem influência de suas próprias crenças, então leiam com senso crítico.

Um "mea culpa" antecipado: não sou cientista político. Não sou especialista em política internacional. Sou engenheiro de software. Apenas gosto de ler jornais e tenho a mania irritante de ter opinião, ainda mais quando se trata de casos em que a mim me pareça que as notícias não mostram tudo e as pessoas saem opinando mesmo assim. Se eu errar em qualquer fato histórico ai, me digam!

Um pouco sobre as relações geopolíticas internacionais

Exercitando uma visão mais preocupada em compreender os processos de mudança geopolítica do nosso continente podemos ver que ele, o Chávez, representou um enfraquecimento considerável na esfera de influência dos Estados Unidos por terras latinas. Talvez também se perceba que o governo de Bush filho também contribuiu tanto quanto para esse enfraquecimento da presença americana, mas claro que isso não é noticiado na mídia local lá nas terras do Tio Sam.

Isso foi uma mudança histórica. Alguns chamam de avanço, outros de retrocesso. Mas foi uma mudança. 

Pausa pequenina pra falar da pessoa dele, mesmo na parte dedicada ao contexto político: O Chávez ajudou muito a montar imagem caricaturada que se faz dele, sem dúvida. Nesse caso de anti-americanismo, o jeitão populista de falar, o verbo solto ao falar sobre os Estados Unidos, tornam ele um cara excêntrico. Numa entrevista ao Oliver Stone (vou postar o link abaixo), ele fala de uma visita americana assim “Ontem mesmo o diabo estava aqui, esse lugar ainda esta cheirando a enxofre!”. Olha outras frases de efeito do figura aqui numa "coleânea".

Mas, voltando à tentativa de "despersonificar" a análise, e olhando alguns processos de mudança geopolítica do nosso continente, continuo. Uma sinergia de vontades políticas começa a acontecer ai. Enquanto Chávez faz seus discursos populistas e cheios de ataques diretos, a Argentina começa a mostrar um exemplo de fiasco do neoliberalismo e Brasil atrapalha a negociação da Alca, a (última?) tentativa de manutenção das relações anteriores do poder norte americano aqui no continente.

Projetos e políticas de interesse comum entre Venezuela e Brasil começam a levar a um projeto sul-americano, com uma expressão política e institucional bem mais regional, na forma da Unasul (União de Nações Sul-Americanas). 

Não que essa organização seja a panaceia (gosto dessa palavra, é mais ou menos “cura pra todos os males”), não, com certeza não é: Ainda há muita diferença e conflito por aqui (Ahh vá?),  mas pelo menos oficialmente (e quero crer que um pouco na prática também) passou a valer o princípio da boa vizinhança e da convivência em paz. 

Outros temas mais calientes também começam a ser discutidos: defesa, combate ao narcotráfico, participação global, ajuda mútua para o desenvolvimento. Cria-se Celac (Comunidade dos Estados Latinoamericanos e Caribenhos). E (agora a coisa ficou séria!) Cuba (!!) começa a ter conversinhas nesse grupinho regional. Recentemente Raul Castro chegou a assumir a presidência da Celac. Copiando a conclusão do jornal pra não dizer que é minha: 

“Cuban President Raul Castro assumed the presidency of the Community of Latin American and Caribbean States on Monday in a demonstration of regional unity against U.S. efforts to isolate the communist government”.

A Venezuela, do demônio Chávez, se torna muito forte nessa união regional. Mostra disso são as parcerias feitas via a Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), segundo a qual a Venezuela acaba ajudando com petróleo alguns países, em troca de força política, claro. E no caso de Cuba, em troca de ajuda médica. Da BBC, pra não dizer que tô escrevendo sozinho:
  
“[a Alba] hoje agrega Venezuela, Equador, Bolívia, Cuba, Nicarágua e os pequenos países caribenhos de Antígua e Barbuda, Dominica e São Vicente e Granadinas. O bloco conta com a cooperação econômica da Venezuela - um dos maiores produtores de petróleo do planeta. Segundo analistas, Cuba é um dos países que mais depende da cooperação venezuelana. O governo de Raul Castro recebe cem mil barris de petróleo por dia com preços subsidiados. Havana retribui com serviços médicos.”.

Além disso, e aqui uso as palavras da Folha,o Haiti também teve alguma ajuda. Quem acompanha as mídias sabe como eles estão (desculpem meu francês) se fudendo por lá. Mas como esse país não tem muito a oferecer, não vejo os países bonzinhos de sempre se envolvendo muito: 

“Deve-se sublinhar aqui a ajuda oferecida ao Haiti nos últimos oito anos através de generosas doações de petróleo. A Venezuela, da mesma forma que Cuba, sempre criticou a Minustah --tropa da ONU comandada militarmente pelo Brasil--, percebida como um novo episódio de intervenção externa imposta ao pobre país caribenho. Esta posição, entretanto, não impede que venezuelanos, cubanos e brasileiros tenham se somado num "pool" solidário para a reconstrução haitiana.”.

Vou usar mais desse mesmo artigo da Folha (mesmo link anterior), por preguiça de escrever por conta própria. E uso essa cópia pra finalizar essa sessão sobre a importância da figura dele no contexto todo da geopolítica recente da America Latina.

“A atuação de Chávez foi ainda um fator favorável para avançar em direção da paz colombiana. O canal de comunicação mantido com as Farc constituiu um elemento facilitador crucial para que a Colômbia pudesse arquitetar uma mesa de diálogo entre as partes em conflito. O recente agradecimento público do presidente Juan Manuel Santos deixa registrado este reconhecimento.

Em resumo, com estridência e dramatismo próprios da cultura venezuelana, Hugo Chávez já deixou uma marca na história recente latino americana.

Trata-se de uma figura que somou altivez e audácia ao momento de recuperação da soberania política da América do Sul. Um momento em que o continente consolida seus marcos institucionais democráticos que, se bem diversos, compartilham o compromisso com políticas de inclusão social e a valorização da paz regional.”

Um pouco sobre o governo "lá dentro", sobre golpes e sobre “ditadura”

Antes de mais nada, é óbvio que não defendo ditadura nenhuma, seja esquerda, seja direita. Recentemente li uma bela coluna do Contardo Calligaris na qual ele diz:

“A política, na segunda metade do século passado, alimentou-se de uma alternativa desse tipo, uma alternativa bandida e falsa, segundo a qual deveríamos escolher entre, de um lado, as ditas liberdades burguesas (liberdade de opinião, de culto, de ir e vir pelo mundo, de ter nossa privacidade respeitada etc.) e, do outro lado, uma nova justiça social, que acabasse com miséria e fome. 

Eu mesmo já pertenci a essa bandidagem. Quando me mostravam que os países ditos socialistas esmagavam as liberdades básicas, eu respondia "E a liberdade de não morrer de fome, hein?". Como se, para se livrar da fome, renunciar às liberdades burguesas fosse o preço necessário e, portanto, aceitável, se não módico.”

Apenas quero falar um pouco sobre a política interna lá na Venezuela também. Sobre esse regime que nem sabemos ao certo se ditadura era (mas assim é chamado pela mídia americana). Então vai um histórico, bem "porco"  que garimpado na Internet rapidão pra ajudar no pouco do que tinha na minha memória fraca.

- Em fevereiro de 1992, o então tenente-coronel Chávez lidera um golpe de Estado contra o governo de Carlos Andrés Perez. Foi um fracasso e Chávez foi preso.

- Em 1999 foi eleito presidente e promoveu uma Assembleia Constituinte que criou as bases de seu projeto político. Estabeleceu uma política nacionalista, atacou latifúndios e promoveu uma onda de nacionalizações em setores estratégicos – petróleo, siderurgia, telecomunicações, eletricidade e parte do setor alimentar.

O discurso dele é que um país que é um dos maiores produtores de petróleo do mundo não pode ficar tão pobre e dependente dos outros. Meio na linha do “o petróleo é nosso” ele foi pulso firme (demoníaco e tals), estatizando uma caralhada de coisas. A própria (e "nossa") Petrobrás sentiu o golpe, nossa mídia na época caiu em cima do demônio, a Veja principalmente:

"Foi perfeita a armadilha montada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com a plena concordância da diretoria anterior da estatal, para tornar a Petrobrás refém dos interesses políticos e das irresponsabilidades administrativas do presidente venezuelano, Hugo Chávez."

Mas o próprio presidente da Petrobrás na época disse que: 

“(...) não há  petróleo em lugar calmo no mundo. Se você for investir no Iraque, no Irã, na China, na Líbia, na Nigéria, em Angola, qualquer país do mundo tem problemas, e o petróleo, infelizmente, não dá em país muito calmo. Os problemas geopolíticos são naturais na indústria do petróleo”.

Não preciso dizer que essas políticas assustaram investimentos estrangeiros (animaizinhos bem ariscos, esses “investimentos estrangeiros”, sempre se assustando quando vêem vermelho) e empresários locais que deixaram de apostar no desenvolvimento industrial do país por temor ao "comunismo".

Em 2003, devido à criação das “missões” (programas sociais, talvez algo análogos a nossas “bolsas”) de saúde e educação fortifica-se a cooperação com Cuba ("ai, que medo!"), que enviaria médicos e educadores (vejam só: Médicos e Educadores!!!) em troca de petróleo. Essa aliança e seus resultados se tornou mais tarde o pilar de sustentação do governo e da popularidade do presidente. E também tornou os EUA e aliados beeeem mais putos com ele.

No fim das contas, no governo dele a pobreza na Venezuela caiu mais de 20%, de acordo com a Cepal (Comissão Econômica para América Latina e Caribe), e o país passou a registrar a menor desigualdade entre ricos e pobres entre nações latino-americanas, de acordo com relatório da ONU, com 0,41 no índice de Gini que mede o grau de desigualdade na distribuição da renda domiciliar per capita entre os indivíduos de um país.

Mas nem tudo são flores, ahhh não. A inflação lá não caiu (na verdade é bem alta). A corrupção também é bem alta, e não caiu com seu governo. Criminalidade nas ruas também é algo que não melhorou nada.

Segundo vários críticos, e tô falando de críticos embasados e não de opiniões idiotas, ele acabou dominando a política com elementos de esquerda. 

“A polarização criada é maléfica para o país, pois apenas um setor da sociedade – os "vermelhos" - teria espaço. Chávez atacou o velho sistema de exclusão social que dominava a sociedade sim, mas em contrapartida desenvolveu um novo sistema de exclusão política"  (Disse Alberto Barrera, autor da biografia do Chavéz à BBC.)

Ainda nessa época, em 2003, a crise política causada por esse bipolarismo e pelo fortalecimento da esquerda levou a um golpe de estado contra Chavéz. Tá bom, esse golpe é polêmico, a mídia americana (vai ter isso no documentário que postarei abaixo) diz que não foi golpe. Mas no geral, se olhar a maioria dos analistas políticos, o consenso é chamar assim.

Ele fica um pouco fora, depois a população vai às urnas e pede ele de volta. Deve ser uma população burra, que cai nas idéias de um populista e que acha coisinhas como diminuição da pobreza, aumento espantoso na saúde pública e melhoria considerável na alfabetização, valem tanto a pena a ponto de se fazer parcerias com gente malvada como Cuba, Síria, etc. Mas de qualquer forma, sendo idiotas ou não, eles votam e ele volta.

Em 2007, Chávez acusa os meios de comunicação privados de serem os porta-vozes da oposição interna e do governo dos Estados Unidos, sendo co-responsáveis pelo golpe (além de extravagante, é paranóico o mano). Ele cancela a concessão pública do canal privado RCTV. Essa saída do ar da RCTV foi vista pela comunidade (e eu concordo com essa visão) como um ataque à liberdade de imprensa e uma ação de censura.  Isso coloca mais lenha na fogueira sobre sua pessoa.

E a polêmica causada por ele não para por ai (ahh.. esse Troll). Acham que Cuba foi suficiente? Indo na política de cruzada contra o "imperialismo", Chávez desafiou a influência americana também se aproximando de figuras como o ex-líbio Muammar Gaddafi e o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Ele dizia que estava na busca de um "mundo multipolar”, coisa de louco provavelmente.

Pros Estados Unidos foi o fim. A mídia americana o mostra como um puta de um ditador, diz que ele é pior que Bin Laden. Chega a falar em matá-lo. Isso tudo vai aparecer no documentário abaixo.

No fim, os venezuelanos foram convocados às urnas em 17 eleições durante os mandatos de Chávez. Ele saiu derrotado apenas uma vez, quando pretendeu reformar 33 artigos da Constituição.

Estudiosos criticam esse tempo todo no poder, e essa dependência. A historiadora Margarita López Maya, antiga aliada do próprio, por exemplo, critica o centralismo desenvolvido em torno da figura presidencial. "Em termos históricos, foi o rei que tivemos na Venezuela. Foi como Luis 14."

Curiosidade: segundo a coluna da Eliane Catanhêde: "Diferentemente do que alardeiam petistas e tucanos, por motivos opostos, a aproximação do Brasil com a Venezuela de Hugo Chávez começou nos governos FHC, a quem Chávez chamava de 'mi maestro' ". Ela fala de suas reuniões, suas piadas, bebidinhas juntos. E que as relações dessa ala política com Chávez se cortaram depois, numa briga com o Serra.

Hoje, por ocasião da morte, dá pra se ver as opiniões dos principais líderes do mundo sobre essa figurinha:


Dá pra ver um pouco sobre a reação da população venezuelana em si:

O documentário do Oliver Stone

O diretor americano Oliver Stone (outro "troll") fez um documentário que mostra um outro lado desse demônio. Não foi agora, "rapidinho", e devido à morte que ele fez o documentário não. Só não era muito divulgado mesmo, o que é natural em se tratando de um documentário sobre política e não de um filme. Só achei pertinente recomendar ele agora.

Chama-se “Ao Sul da Fronteira” e tem integralmente aqui no Youtube, dublado em português. Não é especificamente sobre o Chávez, mas sobre presidentes latino americanos sendo vistos por um ponto de vista diferente daquele mostrado pela grande mídia norte americana.

Acontece que o Chavéz acaba ganhando parte importante, os 38 minutos iniciais são praticamente apenas sobre ele.

Vi umas entrevistas com o diretor um tempo atrás e ele deixa claro que não é mesmo um trabalho jornalístico imparcial. Ele focou em mostrar um lado específico, que é aquele ignorado pela mídia americana, com isso tem poucas críticas aos presidente sulamericanos (então assistam com parcimônia).

Convido quem tiver interesse sobre política latino americana a assistir. Até mesmo aqueles que o acham um demônio e estão comemorando sua morte... pelo menos vê-se um documentário cheio de entrevistas com o demônio. Cool, né?

E eu?

Bom, eu prefiro complicar tudo mesmo. Não gosto do mundo em preto e branco. Tem uma música do Live que gosto muito, chamada “The Beauty Of Gray”, cujo refrão é:

“and the perception that divides you from him, is a lie
for some reason you never asked why
this is not a black white world
you can't afford to believe in your side

this is not a black and white world
to be alive i say the colors must swirl
and i believe that maybe today
we will all get to appreciate
the beauty of grey”

Escutem aqui é uma bela canção.

Se tem uma única afirmação que faço, sem relativizar, disso tudo é: pra mim comemorar câncer alheio, ou desejar o mesmo a outros é babaquice!

07 novembro, 2011

Sobre os “maconheiros da USP” versus os “facistas a favor da polícia”

Jurei que não ia mais ligar com comentários na Internet depois de levantar a hipótese de que isso é tudo um complô pra “trolar” a mim, ao Auro e ao Pablo. Mas lendo algumas notícias esse final de semana não me segurei. Quanta desinformação e críticas idiotas eclipsando uma discussão possivelmente interessante (ou várias discussões possivelmente interessantes)!!! Dai escrevi isso aqui a principio num e-mail e agora pra descansar um pouco depois do café resolvi postar.



De um lado, os “direitosos facistas”

De um lado os blogs vermelhos dizendo que polícia nos campi não muda em nada a segurança e (e agora vem a parte que me irrita) chamando qualquer pessoa que é a favor da polícia de facista, nazista e coisas do gênero.
E dai acabam desvirtuando a discussão, extrapolando o rótulo de facista pra qualquer pessoa com uma opinião mais alinhada à direita. Assim se se pratica uma repressão contra formas diferentes de pensar que me lembram justamente o... ahn... facismo!!
Acontece que vemos segundo os dados oficiais, que o índice de crimes dentro da USP caiu em mais de 90%depois do convênio com a PM. Ou seja, parece que está sim adiantando.



Do outro lado, os “esquerdosos maconheiros”

Então vem a mídia mais “formal” generalizando e extrapolando no outro sentido. Sendo a cereja do bolo, em minha opinião, a Veja com a matéria dizendo que: a “Democracia de fardas” foi atacada a pedradas por maconheiros, e que todo o movimento que estamos vendo essas semanas é tão somente pra não deixar prender esses “maconheiros”.  
O pior é que nos comentários dos leitores vi que essa sementinha cresce e cresce e floresce a ponto de ter uma galera criticando a existência em si de cursos de sociologia e filosofia, como antros de maconheiros baderneiros que são inúteis para a sociedade.
(abre parênteses pra um desabafo sobre a democracia de fardas)
Com todo o respeito pelos policiais honestos (que devem ser a maioria), mas “Democracia de fardas” foi foda. Uma vez tive minha casa assaltada e os policiais apareceram mais de uma hora depois, dizendo que não tinham como tentar achar os bandidos por falta de homens (eles tinham a descrição das pessoas e do carro) e disseram inclusive que nem iriam fazer o BO ali que dava trabalho, eu que me dirigisse (sem carro e sem dinheiro) até a delegacia que ficava beeem longe em outro bairro. Estranho, mas até o momento poderia ser verdade. Nem quatro dias depois um rico do mesmo bairro morando a poucas quadras é assaltado e em menos de 10 minutos havia vários camburões e helicópteros rondando (sério). Claro que a culpa não é exatamente dos policiais que estavam fazendo seu trabalho, alguém deve ter tomado as decisões. Mas foi bem democrático mesmo, né? Há vários outros exemplos aqui, mas não é o motivo do post.
(fecha o parêntese do desabafo sobre a democracia de fardas)



Um pouco de histórico

A discussão sobre polícia militar versus universidades é antiga, bem mais antiga do que esse caso dos 3 maconheiros/estudantes de agora. Não acredita? Então vamos lá...
Em um livro chamado “O livro negro da USP” (de autoria coletiva de vários professores) eles remontam essa discussão lá pra década de 40.
Tem quem não acredita nisso, vá lá. Afinal são teorias sobre a função social da universidade e de como a presença de uma força militar coibiria o livre pensamento e tals. Mas são teorias, e cada um acredita no que quiser.
De qualquer forma, ainda no “histórico”, tem dados menos subjetivos do que esse livro (e vários outros), como a listinha abaixo.
>> Apenas nove dias após o golpe militar, o que eles invadiram e quem eles caçaram? Não vou nem responder a essa pergunta retórica. E não foi só essa primeira invasão não, o histórico de invasões à universidades e torturas por parte da ditadura durou muito.
>> Em 1969 o governo criou o “Decreto-Lei nº 477”, elaborado pelo Conselho de Segurança Nacional, especialmente para silenciar estudantes, professores e funcionários das instituições de ensino.
>> Depois, em 1970, a mesma galera da ditadura teve a grande ideia de colocar a Academia de Polícia na entrada da universidade.
>> Dai, em 1973, veio a criação da “Assessoria Especial de Segurança e Informações (Aesi)”. Implantada na USP com objetivo selecionar os funcionários, colher dados sobre atividades subversivas, levantar informações sobre alunos, entre outras cositas más. As invasões de salas de aulas, com prisões de professores e alunos, aumentaram muito. A Aesi acabou em 1982.
>> Dai vem a nova Constituição Brasileira, de 1988, trazendo pela primeira vez o princípio da autonomia universitária plena; Embora ainda muito se discuta até hoje sobre o que seria essa “autonomia plena”, a polícia foi perdendo aos esse papel de controlar o que se passa dentro da faculdade. A tal da “guarda universitária” da USP ganha peso.
>> Em 2009 a PM volta a entrar na USP, devido uma greve pedindo o de sempre (salário, melhores condições, etc, etc). Alguém chuta o final da história? Ela terminou em confronto, balas de borracha, bombas de efeito moral e gás de pimenta.  
>> Em 18 de maio último morre um estudante durante um assalto, e a PM ganha mais presença dentro da USP, assim como as discussões de se ela deve ou não estar lá dentro ganha nova força.
>> Mais recente - e quase acabando a historinha (juro!) - em 8 de setembro agora Antonio Ferreira Pinto (secretário estadual da Segurança Pública), coronel Álvaro Batista Camilo (comandante do policiamento do estado), e pelo professor João Grandino Rodas (reitor da USP)  assinam um convênio aumentando mais ainda a presença militar dentro da USP.
(parênteses sobre o reitor)
Não que seja diretamente ligado, longe disso, mas acho que de certa forma apimenta um pouco essa história o fato de o reitor Rodas ter sido escolhido pelo Serra através de uma nomeação que ignorou a votação da comunidade acadêmica, que teria eleito Glaucius Oliva como reitor. Direito do Serra fazer isso, o resultado da votação é apenas uma sugestão ao governador que é quem decide o nome. Direito dele, mas algo não muito comum depois da ditadura. Tanta polêmica o reitor causou com sua linha dura. Até considerado oficialmente "persona non grata" pela faculdade de direito da USP (aka Largo da São Francisco).  Título inédito, e olha que eles tiveram alguns ditadores lá dentro (e tô falando da São Francisco, não da FFLCH).
(fecha parênteses sobre o reitor)
>> Finalmente chegamos no estopim que gerou às notícias das últimas semanas: 3 alunos estariam portando maconha e as “rondas ostensivas” da PM de São Paulo (quem se lembra da sutileza da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, também chamada de ROTA, levanta a mão) vem gentilmente pedir pra eles os acompanharem até a delegacia (apesar de que porte de drogas não daria prisão, até onde eu saiba). Mesmo com o pedido sendo totalmente gentil e sutil, os alunos, vários professores e vários funcionários perdem a cabeça e saem enlouquecidos contra os policiais bonzinhos que só vêm uma alternativa que seria o uso – de novo – de bombas de gás e tiros de borracha contra a horda de alunos e professores alucinados, ensandecidos e perigosos.
>> Após essa abordagem da polícia, o protesto contra a presença da polícia no campus ganhou escala e finalmente explodiu com a invasão (ocupação?).
Isso falando da história da PM na USP. Se pegássemos, por exemplo, a UNB, a história seria muito maior.
All in all, o ponto é que a coisa é um pouco mais complicada do que: “3 maconheiros tentando acabar com a formação intelectual do Brasil, que felizmente foi salva pela maravilhosa democracia de fardas. Então uma onda de loucura se abateu sobre outros alunos e sobre os professores que querem soltar os maconheiros de qualquer forma”.



Quer discutir? Vamos discutir coerentemente

O resumão é: estou indignado não com a opinião de um lado ou de outro, ou seja, não me indignam opiniões pró ou contra PM em um campus. Eu mesmo ainda não tenho opinião sobre tal. Sério.  
Acho a discussão disso muito bem vinda, por sinal.
Também a discussão adjacente que está surgindo em muitos dos posts que li, sobre a descriminalização da maconha, pode ser interessante e bem vinda. Mas se discutida com seriedade e não com xingamentos e estereótipos.
Estou indignado sim é com a desinformação e as generalizações idiotas que vem sendo feitas.
Algumas frases soltas pra terminar, meio que mostrando minha opinião contrária à muita coisa que andei lendo repetidamente nos comentários por ai:
>> Estudantes da FFLCH, ou quaisquer estudantes de sociologia ou filosofia não são um bando de maconheiros inúteis.
>> Fumar maconha é proibido, é ilegal (embora, até onde sei, não punível por prisão). Mas isso não faz com que a pessoa esteja errada em todo e qualquer aspecto da vida. Dirigir acima da velocidade ou depois de uma cervejinha, ou não dar preferência ao pedestre, também são atitudes ilegais (e que matam muito mais por sinal) e nem por isso todo mundo que dirige assim de vez em quando é um filha da puta que merece morrer e está errado em quaisquer aspectos de sua vida.
>> Comprar num camelô também dá dinheiro para o crime organizado.
>> A discussão sobre se a soberania da faculdade deveria ou não contemplar a ausência de polícia militar dentro da mesma é mais bem antiga do que esse caso dos 3 estudantes e já estava sendo discutida antes (desde a década de 40!). Isso foi um estopim pra a manifestação mais recente (assim como já ocorreram várias outras no curso da história).
>> Uma pessoa que tenha opinião a favor da polícia no campus, sejam quais forem seus motivos, não é um facista tampouco um idiota.  Nem é um idiota aquele que acha que um reforço para a guarda universitária seria a saída.
>> Discutir baseando-se em xingamentos e estereótipos não leva a lugar nenhum, é apenas uma batalha de egos idiota.
>> Mesmo se você acredita que a PM não deveria entrar no campus, uma coisa é fato, a criminalidade aumentou muito dentro dos campi nas últimas décadas. Já temos assassinatos e estupros, e algo deveria ser feito a respeito. Aparentemente a PM coibiu os crimes.
>> A existência de maconha dentro dos campi não é algo novo, não está acabando com o futuro acadêmico (li isso, sério!).  Ela sempre existiu. Existiu e ainda existe em todos os cursos, por sinal, quer sejam de humanas quer sejam engenharias, direito ou medicina. Nem por isso não temos produzidos bons pensadores, médicos, cientistas, idéias, etc.
>> Tem gente que acredita que todo o lance de discutir repressão a maneiras diferentes de pensar está errado por princípio, já que as universidades seriam apenas cursos profissionalizantes que te dão um diploma que por sua vez te dará um salário melhor. Nesse caso preciso opinar, já tenho uma opinião forte contrária a isso, mas apesar de eu ser contra essa linha de raciocínio quem pensa assim tem direito de falar e defender sua opinião sem ser ofendido.
>> Transformar um protesto político (seja a invasão/ocupação a melhor maneira de protesto ou não) que tem como objetivo a retirada da polícia do campus da USP (quer seja esse objetivo algo louvável ou não), em um protesto contra a prisão de maconheiros é, pra dizer pouco, intelectualmente desonesto. Além de ser também uma maneira fácil de levar o grande público a repudiar tal protesto já que o tema 'drogas' quase sempre é um tópico de consenso (como ouvi por ai e estou copiando, aliás), é como Hitler: caso você fale mal dele, sempre estarão ao seu lado e assim fica fácil convencer quem não está acompanhando tudo com senso crítico.

10 janeiro, 2010

Tudo é relativo, ou Hardcore

Liguei a TV na MTV agora e está passando aquele Lab Toca Ai, no qual uma banda ou músico apresenta uma série de clips conversando um pouco entre um e outro.  Hoje tá o NX Zero e peguei um trecho mais ou menos assim, ao acaso:

Tocaremos agora um hardcore, talvez a primeira banda hardcore e underground a fazer sons falando em português e sobre o Brasil.

Até parei o que tava fazendo pra ouvir, cogitando: "será que os caras têm influência de Sepultura, Ratos de Porão ou algo assim?".

Ledo engano, veio um clip do CPM22.

Acho que vou continuar assistindo por curiosidade mórbida... O Auro tá dizendo que duvida que eu consiga...

09 janeiro, 2010

O gene capitalista & a responsabilidade da mídia



Recentemente a revista Veja publicou uma matéria chamada O Gene Capitalista, na qual entrevistava um economista chamado Gregory Clark e apresentava algumas idéias como estas, chamando-as de científicas:
 

“"Não tenho dúvidas de que existe um gene capitalista", disse Gregory Clark à VEJA. "No futuro, a ciência será capaz de selecionar indivíduos com base nele."”

“Os economistas acreditam que, para um país crescer, basta dar incentivos às pessoas. Meus estudos indicam o contrário. As características da população são mais relevantes para a economia do que instituições sólidas, proteção aos direitos de propriedade e governo reduzido.”

“A genética de uma população determina se um país será rico ou pobre. Os aborígines australianos, por exemplo, que nunca experimentaram um sistema semelhante a uma economia de mercado até a chegada dos europeus, são incapazes de competir economicamente. Também não há muita coisa que um governo possa fazer para desenvolver um país como o Brasil.”

“Para o autor, é a escassez de indivíduos adaptados cultural e geneticamente à economia de mercado que explica a pobreza de regiões como África e América do Sul. Interessante.”

Eu acho falta de responsabilidade uma revista com a penetração da Veja, baseando-se em uma “pesquisa” (já chego no ponto que tenta justificar essas aspas) de determinada pessoa, publicar frases de efeito como: negros não menos produtivos que brancos e isso está provado geneticamente, que as empresas deveriam levar isso em conta, ou que não há muita coisa que um governo possa fazer para desenvolver um país como o Brasil.

Discutir o tema num ambiente acadêmico ou mesmo num buteco, sem chamar de verdade ou de prova, va lá. Mas publicar num meio de massa, e com esses termos? Ainda mais sabendo que a linha editorial é muito forte e escolhe muito bem o que sai e o que não sai, acho no mínimo de mau gosto.
 

Quanto ao fato publicado em si, tenho pessoalmente algumas ressalvas em falar de determinismo a esse ponto. Essas ressalvas são pessoais e não são ciência, mas enquanto ambas as correntes não são ciência e sim teorias, escolho as minhas de acordo com meus valores,  convicções e esperanças. 

Que fique claro que sei que o conhecimento da biologia e da genética são importantes, especialmente para tratamento de doenças, etc, etc. Mas temos que ter cuidado em não fazer da genética a próxima religião que prova tudo e determina tudo. Agora, o que esse cidadão faz é praticamente uma eugenia aplicada ao capitalismo. Ridículo. 

Se fossemos todos tão determinados pela genética, viveríamos em um sistema de castas - ou melhor, quase como numa colméia - com tarefas distintas e sem mobilidade social alguma. Aliás, o próprio conceito de evolução baseia-se em mudanças nessas predeterminações genéticas que às vezes ocorrem para o bem.

Mas o que mais me intrigou aqui não é nem o fato “descoberto” pelo cara em si, mas sim o método científico utilizado por esse economista para depois chegar a conclusões absolutas que usem os termos genética, pré-determinismos, foi provado, etc.

Olhemos com um pouco mais de cuidado a pesquisa do cara:
 

-> Os ingleses produziam mais no tear do que os indianos. Blargh... É óbvio que os ingleses costuravam mais e melhor porque estavam inseridos na cultura que inventou a máquina de costura, enquanto os indianos culturalmente eram mais afeitos ao artesanato. Os ingleses estavam mais adaptados à maquinaria. Se fosse o contrário? Extrapolando com algo que não estava na pesquisa do cara, por que os indianos são tão bons em matemática e em TI hoje em dia? Muito provavelmente tem alguma influencia o fato de que durante o período colonial, não podiam estudar humanidades, para evitar a ascensão de camaradas como o Gandhi. Não está necessariamente no gene deles, caso contrário eles teriam sido os inventores da contabilidade, do sistema bancário,  e coisas assim.
 

-> Outro dado interessante é que, com base nesse argumento genético, ele responde a uma das perguntas afirmando que o Brasil não teria jeito. Além de falar sobre ingleses, chineses, etc... Desde quando "Brasileiro" é uma raça, de modo a estarmos geneticamente determinados ao fracasso desse jeito? Nacionalidade == etnia agora?
 


-> Por fim, mas não menos importante, como ele tira conclusões genéticas de estudos estatísticos sobre o comportamento das pessoas e sobre as formas de acumulo de capital? Mais especificamente, sobre um estrato populacional entre os anos 1200 e 1800??? Como ele analisou os genes destas pessoas? A partir do seu comportamento? Então ele simplesmente criou uma premissa que é ao mesmo tempo dado e conclusão de pesquisa. A relação causal não fica clara no argumento dele. Seria algo como: “partindo do pressuposto de que eu estou certo, vou dar uma volta retórica e provar pra vocês que eu estou certo”.

Onde está Lévi-Strauss, nessa história toda?
 

E eu, particularmente, não quero chegar pedindo um visto para, sei lá... Europa... algum dia e me barrarem porque descobriram que algum ancestral meu foi assaltante... Ou que uma empresa não me contrate porque, como provou o Sr. Clark, os gens dos brasileiros (WTF?) estão fadados ao fracasso dentro da sociedade capitalista.
 

E uma revista que publica isso, mesmo com toda essa "ciência", perde um pouco do meu respeito.