13 Abril, 2012

Dança Macabra, ou "ahhh, o terror!"

Como hoje é Sexta-feira 13,  resolvi escrever um post comemorativo. Na verdade vou requentar e reciclar um review que escrevi de um livro esses dias atrás pra uma lista de e-mails da qual participo... Bora lá!
No final de semana passado, na páscoa, comecei a ler o livro "Dança Macabra" uma não ficção do Stephen King sobre terror. Mais especificamente sobre o gênero terror, como apresentado na literatura, rádio, tv e cinema. Assim como o resto da bibliografia do King, o livro é irregular; com algumas coisas interessantes e outras nem tanto. Mas no geral o saldo é positivo (e não tem como negar que ele tem um vasto conhecimento na área, quer seja como leitor, escritor ou professor universitário). Ao falar sobre o gênero terror, ele acaba mostrando muito da cultura americana e suas raízes também, uma vez que ele contextualiza sua gerarão (que eles chama de "filhos da guerra") e o que eles pensavam, que tipo de educação tinham, pra chegar em como os filmes o afetavam.

Apesar de ser (como é explicitamente assumido no livro) uma simplificação muito grande, ele começa por discutir 3 obras que seriam a "Santíssima Trindade" (trocadilho meu) do terror, e depois expande. Ainda não cheguei na parte que ele discute o radio, peguei literatura e parte do cinema até o momento. Mas vamos às três obras da Santíssima Trindade da literatura de terror...
Frankenstein
Representando o "monstro". Deformado fisicamente, e amoral por definição já que nunca foi ou será humano, não estando sujeito à nossa moral. Representa o horror externo ao ser humano. E mostra também que o horror inicial, que causa a posterior maldade do monstro parte dos humanos ao temer e odiar algo diferente.
O Médico e o Monstro 
Representando todos os que ele define como "contos de lobisomem". Nos quais um sujeito é bonzinho e socialmente aceito e. Em certas ocasiões, seu 'Eu' mais primata, reptílico e reprimido, se solta e horroriza. Mas depois, em algum momento, o humano socialmente aceito volta. Ele mostra que essa obra já tem boa parte da psicanálise Freudiana, que seria publicada 30 anos depois. Id, Ego e Superego estariam representados inclusive na figura da casa e da porta por onde o Mr. Hide sai. Ele comenta que até Psicose, do Hitchcock se encaixa como um "conto de lobisomem" com o mérito de ter trazido o "monstro" pra vida cotidiana, alguém normal como nós. Até o momento da escrita do livro pelo menos, a atuação em um filme baseado nesse livro tinha rendido o primeiro e único Oscar de melhor ator pra uma atuação em filme de terror.
"Drácula" 
O "vampiro". Já foi humano mas depois de experimentar o sangue se torna algo além, e que devido a vários fatores (imortalidade, necessidade de alimentação, ...), se torna inimigo. Aqui também entram desejos sexuais reprimidos (por vezes violentos) e tals, bem como a sedução que o lado negro exerce. Não preciso me alongar muito que todos conhecem bem o velho conde.
Só 3 monstros originais?
Esses 3 arquétipos acima na verdade seriam complementados pelo do "Fantasma" que ele opta por não discutir por algum motivo, mas sugere que se leia um tal de "A Volta do Parafuso" de um tal de Henry James, e que eu preciso adquirir urgentemente. Ai sim os 4: Monstro, Lobisomem (representado pelo Mr. Hide), Vampiro e Fantasma, montariam a base "cartesiana" pra todo o resto.
O "Monstro" mais desconhecido dos 3
O melhor dos 3 livros seria o Frankenstein. King discute que, infelizmente, a maior parte das pessoas não leu justamente esse (mesmo os adeptos da literatura sobrenatual). Por isso conhecem apenas o Frankenstein do cinema, aquele que é burro e mal fala, e não o culto leitor de filosofia e com uma fala eloquente que é o monstro original.

Adivinhem qual dos livros citados eu não tinha lido? Justamente o Franskenstein, então a crítica dele quanto a esse ser pouco lido me vestiu a carapuça direitinho. O Drácula já li e reli inúmeras vezes, o Médico e o Monstro tenho uma edição de colecionador bem bacana, com desenhos, cópias de manuscritos, artigos publicados na época e etc.

Como o mundo tá cheio de coincidências, domingo de Páscoa (enquanto ainda lia o Dança Macabra) eu estava esperando o ônibus de Ribeirão Preto pra São Paulo e passei em frente à banquinha de jornal. Qual livro estava destacado em promoção? Frankenstein, claro!. Comprei na hora e já li mais de 100 páginas dentro do ônibus mesmo. Cheguei na parte que mostra o monstro ontem e realmente o discurso dele pra com seu criador é bastante culto e eloquente. Mas parei no primeiro encontro entre os 2, amanhã continuo o livro e vejo onde isso vai chegar. O livro tá interessante até o momento.
Só isso?   
Em tempo: nessa obra ele cita inúmeros outros livros e filmes de horror, inclusive casos da bíblia ou filmes da Dysney (Joãozinho e Maria, por exemplo, sugere canibalismo claramente). Cita vários filmes de horror clássicos, principalmente das décadas de 30 à 50 que dá vontade de (re)ver. Se der ânimo vou tomar nota dos filmes discutidos e baixá-los pra fazer uma imersão num final de semana qualquer (ou vários finais de semana quaisquer). Cita outras vertentes como Edgar A. Poe, e também fala muito do Lovecraft. Essa "resenha" é apenas focando nos 3 livros base citados.
É interessante notar que essa seleção parece retratar, ambivalentemente, a fascinação e o temor com relação ao desenvolvimento da sociedade além de serem histórias criadas e ambientadas no Século XIX; ambientados na Inglaterra; e que se referem de certa forma à tecnociência (talvez com exceção do Drácula nesse último quesito).  Elas trazem uma mensagem "moral" também (bem comum no terror) do tipo: não tente brincar com a natureza, ou se igualar a Deus, ou mesmo dar vazão a seus desejos carnais mais íntimos, isso levará a consequências trágicas pra você e seus familiares.
Os consumidores do gênero terror
Segundo Mr. King conta existem muitos estudos sobre consumidores do gênero terror. Muito mais estudos do que sobre consumidores de outros gêneros. Nenhum acadêmico se propõe a analisar quais motivos levam alguém a gostar de comédia... ou poesia. Existem alguns sobre consumidores de ficção científica, mas nãos são tão abundantes como os estudos sobre quem gosta de terror. Acreditando no autor quanto a esses dados (bom, ele pesquisou muito pra escrever esse livro e dá aula em algumas universidades sobre o tema), dá pra viajar aqui e fazer um paralelo. Nas obras analisadas sempre tem uma parte comum que é o fascinio, a sedução e, muito mais forte que esses, o medo pelo desconhecido, pelo diferente. E uma vontade de trazer o diferente pra normalidade ou pelo menos analisá-lo, dai os "normais" não ficam mais tão incomodados. Será que os consumidores do gênero terror também são, eles próprios, considerados diferentes e marginais nos circuitos de literatura e de cinema enquanto arte (no geral o gênero é mesmo considerado menos "nobre", ou menos sério - junto com a ficção científica que seria o segundo grupo de leitores mais estudado), e são estudadados - por isso mesmo - com mais afinco pelos "normais"? Viagem, né?
Twitter é pros fracos :)
Viram só, através de minha "arte de enrolar" consegui usar trocentas linhas pra um post que se fosse criado automaticamente pelo meu Skoob pra ir pro Twitter diria apenas:
-- "Matheus está lendo Frankenstein, de M. Shelley"
PS.: Post relacionado:  O terror e as origens do cinema

01 Abril, 2012

Meus flertes com um novo tipo de heresia

A "Hora do Planeta", em Atenas

Quando escreveram sobre o Ofício do Sociólogo, Pierre Bourdieu e Jean-Claude Chamboredon conseguiram expor, de forma bastante eloquente, a necessidade da Sociologia superar o senso comum, e principalmente o senso comum sociológico. Essa tarefa é mais fácil em alguns casos, e praticamente impossível em outros. Certos assuntos são protegidos ou por uma falta de conhecimento generalizada - é difícil questionar o que não se conhece, afinal! -, ou por estarem muito protegidos por uma aura ideológica que, por definição, proíbe certos tipos de questionamentos, para evitar qualquer ataque à sua lógica interna.

Esse tipo de interdição do questionamento parece ser fundamentalmente relacionado com formas de conhecimento não-modernas (religião, por exemplo). A Ciência e as discussões políticas embasadas nela seriam, em um primeiro momento, muito mais abertas ao escrutínio e discussão sistemáticos, pois o ceticismo seria um pressuposto de sua construção. Na prática, eu creio, a conversa é outra.

O ecologismo e o ambientalismo, e as ações políticas e coletivas decorrentes deles, me parecem ser (apesar de declarações em contrário) especialmente habilidosos em jogar com modalidades não-modernas e não-científicas de construção de consensos. Os elementos morais envolvidos na ciência do aquecimento global, por exemplo, são tão visíveis que chegam a ser descarados: em certos círculos é melhor não questionar o consenso em torno do aquecimento global, sob pena de ser submetido à um doutrinamento bastante eloquente sobre a destruição apocalíptica da terra e o papel do homem em evitá-la!

(não que eu defenda o predomínio completo da Ciência e da racionalidade na vida cotidiana; o meu problema é o evidente paradoxo de um ramo do conhecimento advogar para si a neutralidade da Ciência e, ao mesmo tempo, ser tão abertamente ilógico, sectário e sustentado em auto-referências).

As semelhanças entre algumas religiões e o ecologismo de ocasião são abundantes. O elemento apocalíptico e as noções de causalidade e culpabilidade que apontam para os desastres como resultado direto de alguma violação comportamental do Homem são as facetas mais filosóficas da coisa toda. Mas o fenômeno tem também sua dimensão prática, construída silenciosamente, sem muita gente perceber!

A “Hora do Planeta” e a Sexta-feira Santa são para mim dois exemplos do mesmo fenômeno: ambos tem a função manifesta de reafirmar a adesão à certas crenças, e a função latente de reforçar a coesão social. São ritos que são conduzidos no piloto automático, muito mais como uma série de ações pré-determinadas e imprescindíveis, conduzidas de forma litúrgica, do que como uma oportunidade de reflexão verdadeira sobre os pressupostos do dia sacro-santo. Curiosamente, do meu ponto de vista agnóstico, os sermões religiosos relacionados à Páscoa parecem ter muito mais de reflexividade do que ações como a famigerada “Hora do Planeta”. (ponto para os cristãos!)

A “Hora do Planeta” baseia-se na premissa de que o ato de desligar a iluminação de monumentos e prédios públicos e de residências, durante uma hora, uma vez por ano, é um ato significativo para a conscientização sobre os problemas do uso de combustíveis fósseis (não cabe aqui discutir a total impossibilidade que seria analisar os irrisórios efeitos práticos diretos de tal ato). Do ponto de vista da coerência interna, é totalmente válido e relacionado com o “estilo de pensamento” postulante. Aliás, é o correlato funcional do ato de não comer carne na Sexta-feira Santa, para lembrar do martírio de Cristo - é um ato simbólico, com uma função doutrinária bem clara. Nesse aspecto, como não-praticamente tolerante, eu deveria me ater ao meu ceticismo e deixar cada um agir como melhor lhe aprouver.

O problema é que os ecologismos e ambientalismos são muito mais poupados do escrutínio sistematizado do que as religiões (apesar de serem, na minha opinião, assemelhados, como se fossem parentes distantes). Apesar de uma quantidade considerável de trabalhos sociológicos sobre o tema, ainda é muito difícil ultrapassar o senso comum (e o senso comum sociológico). Assim, iniciativas como a “Hora do Planeta” são vistas (mesmo pelos supostamente esclarecidos praticantes das Ciências Sociais) como ações positivas ou, na pior das hipóteses, como algo a ser ignorado. A capacidade de análise crítica sobre o tema parece ser inversamente proporcional ao apelo e penetração atual do tema em diferentes espaços sociais.

A “Hora do Planeta”, como o próprio nome indica, só é possível em um contexto de globalização - ou seja, a noção da existência de problemas globais e da necessidade de ações globais só é possível em uma sociedade que oferece as condições tecnológicas e institucionais para isso: sem as tecnologias de comunicação e as instituições e organismos “transnacionais” não existiria a noção de problema ecológico global. Não sou exatamente especialista em “globalização”, mas sei que o fenômeno tem consequências práticas, muitas delas negativas, que sequer são problematizadas em ocasiões como a “Hora do Planeta”.

Vejamos: a noção do risco de aquecimento global, quando interpretada superficialmente, dá conta que os riscos seriam divididos de modo indistinto, como se todos os povos e nações fossem igualmente afetados e, portanto, como se todos fossem igualmente responsáveis pelos efeitos negativos passados decorrentes da exploração indevida dos recursos naturais e, em especial, pela mitigação futura dos problemas e desastres relacionados. De fato, os riscos são sempre distribuídos desigualmente e os países e comunidades pobres são frequentemente mais vulneráveis ao risco. No entanto, essas nações e comunidades vulneráveis dificilmente são aquelas que contribuíram de forma direta para a produção dos riscos: um país sub-desenvolvido provavelmente possui, em toda sua história, uma pegada de carbono muito menor do que um país desenvolvido.

Assim, para além da percepção da distribuição “global” dos riscos, se procede uma incorreta distribuição da causalidade (e, portanto, culpabilidade) dos riscos. O movimento retórico é sutil, mas não é desprezável: ao pedir que todos apaguem as luzes, estamos responsabilizando em igual medida e critérios países tão distintos quanto os Estados Unidos e Angola! O “apagar das luzes” pode ser simbólico, mas a mensagem que ele passa e a cultura que ele ajuda a sustentar é absolutamente assimétrica em sua prescrição: retoricamente, exige-se dos países menos industrializados um comportamento de mitigação que os países industrializados historicamente nunca tiveram!

Isso não significa negar a “realidade” dos fenômenos de aquecimento global e similares, mas problematizar a política por detrás da percepção existente sobre eles; sobretudo, é bom lembrar que os países mais pobres são justamente aqueles que tem menos condições de lidar com os potenciais efeitos do aquecimento global, tal qual ele é entendido atualmente. Existem momentos, no entanto, que uma concepção globalizada sobre os problemas ambientais pode ser contra-produtiva. O caráter ritualístico de apagar as luzes na “Hora do Planeta” é essencialmente fetichista, sem função prática direta. Por conta disso, ele pode funcionar como uma “politização desmobilizante”: apagar as luzes torna-se um fim em si mesmo, um ato que tem início e fim demarcados e pouca conexão com o fato gerador da ação. Apagadas as luzes, os cidadãos globais lidam com o problema, para imediatamente esquecê-lo (assim como acontece com a interdição do consumo de carne na Sexta-feira Santa). Ao contrário de manifestações políticas mais tradicionais e diretas (das greves às passeatas nas ruas), onde os posicionamentos políticos são demarcados e os posicionamentos ativamente definidos, as ações como a “Hora do Planeta” esvaziam o tema de qualquer antagonismo ou conflito - o que sobra, a exemplo dos fenômenos religiosos - é uma noção de solidariedade, que em muitos casos escamoteia as tensões decorrentes da vida política. Mais do que isso, o ritual de expiação do apagar anual de luzes dá uma impressão (na maior parte dos casos, eu suponho, falsa) de comprometimento. Ao politizarmos o tema desse modo específico, estamos na verdade esvaziando seu significado: paradoxalmente, ao apagar as luzes, todos nos responsabilizamos, mas em ninguém recai a culpa.

A atribuição de culpa, fenômeno humano tão universal (Mary Douglas que me corrija), fica reservada então para a dissidência. Não agir ecologicamente hoje significa, inevitavelmente, comprometer o futuro comum. Por isso, a adesão aos cânones do ecologismo normalmente não permite muito questionamento e interpretações divergentes. É claro que o ecologista e o estudioso possuem um repertório conceitual suficientemente elaborado e amplo para expandir e até mesmo suspender a crença nos limites conceituais de sua atividade, como é esperado em uma discussão produtiva em um contexto democrático. Mas o leigo sempre vai ter acesso à versão mais estável e, portanto, mais conservadora da teoria científica. Isso, aliado aos espetáculos midiáticos como a “Hora do Planeta” produzem uma ignorância involuntária, cujos efeitos podem os mais curiosos: admita, não é preciso procurar muito para encontrar alguém que apague as luzes conforme o pedido da WWF, mas que insista em sair de carro para comprar pão! Ou pior: não são raros os indivíduos que aderem à causas globais e são completamente alheios à causas locais, ecológicas ou não, que o afetam diretamente (num desacoplamento entre tempo/espaço característicos da modernidade e suas consequências como - vejam só! - a globalização! Não é, Giddens?).

Para todos aqueles que se consideram pessoas ecologicamente conscientes, meu pedido de desculpas pelas profanidades expostas acima. Sim, eu sou um herege. Mea culpa, mea maxima culpa. Acontece que estou professando aqui meu outro credo, as Ciências Sociais, e me incomoda ver um assunto tão importante ser tratado de forma tão leviana. Não se trata apenas da “Hora do Planeta”, mas de uma postura geral sobre os problemas ambientais: atualmente, negar a ação humana como causa do aquecimento global é tão vergonhoso como negar Cristo por três vezes! Assim, meu esforço, antes de desrespeitar um tipo de pensamento, é para compreendê-lo melhor e se possível reforçar seus argumentos. Em linhas gerais, digamos que compartilho da causa, mas não das formas de mobilização adotadas. Em especial, argumento pelo meu direito de ser um dissidente em um contexto democrático, sem necessariamente ser tratado como um herege.

De qualquer forma, “folgo em saber” que ao menos não serei queimado vivo, como as bruxas e hereges de outros tempos. Afinal, todos ecologistas sabem que as fogueiras destroem madeira e aumentam os problemas com o efeito-estufa! Por outro lado, também os churrasquinhos humanos de outrora tinham funções sociais que iam muito além de acabar com o problema, em si. Assim como a “Hora do Planeta”, também serviam para conscientizar! “Ou não” ;)

15 Março, 2012

Crônicas da Cidade Grande: Pessoas Invisiveis!

Me mudei pra São Paulo recentemente, e tenho feito várias reflexões sobre as diferenças entre essa cidade e outras onde vivi, coisa de pensamento durante uma viagem de metrô e tals.
  
Um dos efeitos colaterais da cidade grande: Pessoas Invisiveis!

Um causo ainda em Campinas

Outro dia, em Campinas, um cara veio pedir uma contribuição pra gente na rua (roupa, dinheiro, o que seja). Sua história é que tinha acabado de sair de um presídio, que tinha feito merda sim, mas agora o governo soltou ele na rua e ele tinha que pelo menos chegar à cidade natal e tentar recomeçar. Bateu um papo conosco, comentou de como a aparente vida fácil trazida pelo crime foi um tiro pela culatra e etc. Sei lá, acreditamos e demos algo que eu tinha no bolso no momento, coisa de 5 reais. Bom, a história é longa e envolve algumas coincidências, mas o fato é que depois de algum tempo acabamos andando pela cidade procurando o cara pra doar umas roupas. Achamos ele. A expressão de gratidão e de incredulidade dele compensou toda o trabalho de andar procurando o cara. Sério, foi bem gratificante. Ele não acreditava que alguém pudesse ajudar dessa forma.

Sampa

Corta pra São Paulo. Como ando a pé e de transporte público, e como não moro no mundinho de fantasia de alguns bairros da zona sul - em Campinas eu morei em "mundos de fantasia", cada um por seus motivos: Barão Geraldo e depois Cambui - vejo pessoas necessitadas com muito mais frequência. De quando em quando algumas vem pedir algo, de quando em quando algumas vem vender algo. "Olha o amendoin torrado, 50 centavos!", "Halls e Freegel, 1 real. São os últimos", "Preciso de 2 reais pra inteirar minha passagem, por favor", "Minha filha precisa de leite"...

Eu costumo vir pro trabalho com os passes do trem da ida e o da volta e com 2 reais pra um suco de laranja de café da manhã. Sério, só isso. Pro almoço tenho o vale refeição, e não curto ficar andando com dinheiro na carteira. Um dia ou outro me compadeci de alguns dos pedintes e dei esses 2 reais pra essas pessoas. O pensamento era algo do tipo:

-- "Puxa, eu ficar sem um suco, sendo que daqui a pouco almoço em um restaurante elitizado comendo do bom e do melhor, versus a possibilidade de ela estar falando a verdade e a criança precisar de leite. Foda-se o suco".

Mas isso se repete... Se um quer comida, outro quer remédio, outro quer inteirar a grana da passagem, outro acabou de sair do presídio... Chega uma hora que meu pensamento muda:

-- "Porra, eu trabalho o dia todo, as vezes trabalho estressante. Não sou consumista, não fico gastando grana com balada, roupas de marca... Não desreipeito as pessoas. E não ganho o suficiente pra juntar capital, apenas pra levar o dia a dia sem luxo, não tenho carro ou moradia própria...  (Levo o dia a dia muito bem, por sinal, não tenho do que reclamar). Quer saber, tenho direito sim a meu suco de laranja e o que mais queira fazer com minha grana. Não posso ficar dando dinheiro por ai baseado em achar que meus gastos são menos nobres".

Um amigo, o Sangue, falou sobre definir um ponto a partir do qual você poderia doar sem se prejudicar. Mas qual é esse limiar? Ficar sem um jogo novo de video game, ou com uma internet mais lerda, seria me prejudicar se comparado a uma criança sem comida?
 
As Pessoas Invisíveis

Ai entram (ou saem) as "Pessoas Invisíveis".

Como? Quando você faz contato visual, quando mostra respeito, compaixão... quando conversa... eles - os excluidos, os carentes, os pedintes - insistem. Andam junto com você por um tempo. Fazem chantagem emocional. Tem uns que olham o quanto tenho na mão (ao pegar o troco na estação, por exemplo) e contra argumentam quando digo que não tenho ou que não quero doar. Que fique claro: isso não acontece todo dia, não acontece toda hora. Na maior parte dos dias minha caminhada é super tranquila. Mas acontece com uma frequência maior do que no interior (seja Campinas, seja Ribeirão). E isso, de ficar discutindo e ouvindo chantagem emocional, é desgastante, te deixa deprê, ou com raiva, ou te faz perder tempo (que as vezes é curto nessa correria que é São Paulo).

Um pouco de foco agora

Veja que não estou me escondendo atrás do argumento de que poderia ser mentira, de que esse dinheiro iria pra drogas, etc. Isso pode acontecer, deve acontecer, mas não é esse caso que me deixou filosofando. To falando de situações em que voce assume que a necessidade existe, de fato (quer seja por bondade, inocência, indícios, não importa).

Finalmente, a invisibilidade

Qual a saída? Não as ver mais essas pessoas como pessoas. Passar reto, sem contato visual, sem demonstrar piedade. São objetos, parte da paisagem urbana. Nunca consegui levar isso ao extremo, mas percebo observando as ruas que pessoas antipáticas de verdade se saem mais rápido dessas situações.

E eu?

Me perguntei quanto tempo Sampa vai levar pra me quebrar, e tornar alguns seres humanos invisíveis pra mim. Parte achou que "Isso não vai acontecer nunca, você não é assim", mas parte pensou "ha ha... vc só tá aqui a 15 dias, espera pra ver".

Sociologia do dia a dia

Pelo menos não estou sozinho nessa. O Rolo me disse que me deparei na prática com um dilema antigo da sociologia: Gemeinschaft (comunidade) versus Gesellschaft (sociedade).

A ideia é que em aglomerados humanos menores, as relações sociais são dirigidas por relações de proximidade e solidariedade, enquanto que nos grandes centros urbanos, são utilitaristas e individualistas. Pelo visto há sociólogos que expandem esse raciocínio analisando os mecanismos práticos de anonimato nas cidades (não cruzar o olhar em transporte público, ignorar pedintes, etc). A ideia seria que ignorar alguns dos problemas sociais da cidade grande no dia a dia não é bem uma questão de moral ou ética, mas uma necessidade prática. Sempre agir altruisticamente em um ambiente de Gesellschaft iria contra a tendência de individualização e especialização que é característica da vida em grandes aglomerados urbanos. Desse modo, quando mudamos para a cidade grande, deixamos de lado algumas relações de solidariedade e ganhamos, em troca, outras coisas (por exemplo, o anonimato).

Como será que isso funciona quando você volta pra comunidade pequena, esses mecanismos continuam agindo? Se sim, você vai parecer uma pessoa mais fria do que é... Mas se bobear a gente vai levando e usando as máscaras sociais de acordo com as situações... ou não.

13 Março, 2012

Curadores Sociopatas

Outro dia li um post recomendado pela Alicia Alao que defendia um novo jornalismo, onde o papel do jornalista deixaria de ser o de "porteiro" e passaria a ser o de "curador" das notícias. Lembro que o texto era bacana e tals, mas não lembro detalhes. Em linhas gerais, nesse mundo de superinformação e de participação cada vez mais ativa da população na criação das notícias, caberia ao jornalista curador contextualizar, selecionar, filtrar e sugerir informações. Algo análogo ao curador de arte de um museu.

Tá. Dai na semana passada, no Happy Hour de lançamento do livro da Marcia Tait, eu, o Rodrigo Botelho, e uma professora cujo nome eu não me lembro (e acho que nem perguntei, por que já saímos discutindo o sentido da vida direto sem apresentações), estávamos falando de todas as coisas do mundo e passamos pelos algoritmos da Google. E em como eles, os algoritmos, selecionam o que aparece nas páginas de busca e em que ordem. Conversa vai, conversa vem, e uma idéia surgiu.
O novo curador de informações
Hoje em dia, por mais que já se esteja falando no jornalista curador, acho que posso afirmar que o principal curador de informações do mundo digital é o Google. Você vai lá, digita seu termo, e ele mostra umas páginas. Na grande maioria das vezes a gente se contenta com algo que esteja na primeira página de resultados da busca. Ou seja, a gente se contenta em escolher um entre 10 dos pré -selecionados pelo Google (dentre as milhares e milhares de páginas existentes). Bela seleção, não? Esse filtro ajuda? Ôh! E muito, uso sempre e vou continuar usando. Um mecanismo como esse, que auxilie na busca de informações da Internet, é indispensável. E a Google faz isso muito bem. Sendo justo, o Google é apenas um exemplo, justamente devido ao grande serviço que é (e é mesmo muito bom, não tô sendo irônico), mas o mesmo vale pros links dos portais em geral, Yahoo, feeds no Facebook, etc.
 
O curador psicopata
Mas aquele papo acima era conversa de boteco, então tínhamos que filosofar, não dava pra parar no elogio ao algoritmo deles. E qual foi o devaneio? Esses algoritmos da Google usam matemática, estatística, dinheiro, análise do conteúdo, análise de nossos dados, etc, e geram a lista de resultados. Porém ele, o algoritmo, não é humano. Ele não tem ética, não tem empatia ou compaixão, não tem opiniões políticas ou sociais, medo, ou dó. Ele é um algoritmo, uma fórmula matemática. E qual a definição de sociopatia? É um distúrbio caracterizado pela ausência de empatia com outros seres vivos, pelo descaso com o bem estar do outro, pela indiferença por normas sociais, indiferença pelos direitos ou pelos sentimentos alheios. Ou seja, pro bem ou pro mal, nosso principal curador de informação hoje em dia é um sociopata! Por definição!
Um dos efeitos disso que dá pra vislumbrar é que um algoritmo não vai valorizar algo devido exclusivamente a fins políticos ou partidários ou devido a opiniões tendenciosas, ou a preconceitos pessoais, etc...  
Outro efeito que dá pra vislumbrar é a não valorização, ou em caso extremo, até a exclusão, da dissidência: se todos clicam na foto da mocinha do BBB que mostrou os peitos logo de cara em detrimento de clicar nos links dos conflitos no mundo árabe, os algoritmos vão se adaptar pra mostrar esse primeiro tipo de notícia em detrimento do segundo. No longo prazo, não verei mais boa parte das notícias de política, pra ver as mocinhas bonitas que serão as coisas mais sugeridas pra mim pelos algoritmos. Tem problema em clicar de cara na matéria dizendo que a moça mostrou os peitos? Não, é natural. O que talvez devesse ser visto com olhos críticos (principalmente por nós da TI que criamos tais algoritmos) é que os algoritmos que curam a nossa informação estão aprendendo com isso, e eles não têm bom senso.
 
Um livro bem caro
Pra dar um exemplo de como um algoritmo não tem muito bom senso, recentemente teve o caso de um conflito entre 2 algoritmos que davam preços de livros para duas livrarias, a Bordeebook e a Profanath. Coincidentemente aconteceu de os 2 algoritmos estavarem olhando ao mesmo tempo para o preço do mesmo livro, o "The Making of a Fly", de Peter Lawrence. Quando uma das lojas aumentava o preço, o algoritmo da outra loja percebia automaticamente e aumentava o preço também. E isso ficou em ciclos. O livro chegou a mais de 20 milhões de dólares até alguém perceber. Ou seja, aquela fórmula matemática que dava o preço do livro não tinha muita noção de valores, afinal, por bom que o livro seja, 20 milhões é sim um pouco fora da realidade. Se fosse um ser humano colocando preços, talvez percebesse algo estranho quando o preço chegasse aos seus 2 milhões de dólares:)

Além das buscas
Isso, de usar algoritmos pra "curar" informações, vai além de páginas de buscas, em iniciativas como essa:

"University of Bristol scientists claim to have developed software that can spot whether a song has hit potential. The program looks at 23 separate characteristics including loudness, danceability and harmonic simplicity. Trained using hit songs from the Top 40 over the last 50 years, the software can predict chart positions. "
(Fonte: http://www.bbc.co.uk/news/technology-16218284)

Ou seja: softwares analizando a música e já avisando a produtora e os investidores se a música fará ou não sucesso. Isso pode até definir o investimento ou não no músico em questão. A pergunta que fica é: e a "inovação"? E a música que trouxer algo novo, que ainda não seja possível prever a partir de dados históricos? Talvez ela fique de fora sem um olhar humano sobre ela (meio sinestésica essa frase, né
?). Aliás, um dos itens analizados automaticamente me assusta, "simplicidade da harmonia". Existe iniciativa semelhante pra roteiros de cinema, mas o link não tá comigo agora.
Hoje mesmo o Fabio Fantato me falou de um sistema que diz aos blogueiros sobre qual o tema eles deveriam escrever pra fazer sucesso e virar hit no dia em questão.
Tem também esse estudo, anunciado no Olhar Digital, que diz que as crianças confiam mais no Google do que em seus pais! E por ai vai...
(fonte: http://olhardigital.uol.com.br/produtos/digital_news/noticias/estudo-criancas-confiam-mais-no-google-do-que-nos-proprios-pais)

 
E dai, que fazemos?
Qual a saída? Não sei se tem que ter uma saída, isso é uma reflexão, um olhar crítico. Sei lá, os jornalistas curadores da Alícia talvez ajudem. Ou, e essa é minha saída pessoal, as redes sociais. Sejamos curadores uns dos outros e através de nossas redes vamos achando e sugerindo informações. Algo meio que no sentido de “inteligência coletiva” do Levy. Sem endeusar as tais redes como solução infalível, mas tem sido meu filtro e minha maneira de divulgar o que acho de interessante pra quem queira ler. No caso de conhecer músicas, quando morava em Campinas ouvia a Rádio Muda, aqui em Sampa ainda não achei uma equivalente. E por ai vamos...
 
PS: Sociopata e Psicopata são termos intercambiaveis, pelo menos assim me disse meu curador sociopata.

07 Novembro, 2011

Sobre os “maconheiros da USP” versus os “facistas a favor da polícia”

Jurei que não ia mais ligar com comentários na Internet depois de levantar a hipótese de que isso é tudo um complô pra “trolar” a mim, ao Auro e ao Pablo. Mas lendo algumas notícias esse final de semana não me segurei. Quanta desinformação e críticas idiotas eclipsando uma discussão possivelmente interessante (ou várias discussões possivelmente interessantes)!!! Dai escrevi isso aqui a principio num e-mail e agora pra descansar um pouco depois do café resolvi postar.



De um lado, os “direitosos facistas

De um lado os blogs vermelhos dizendo que polícia nos campi não muda em nada a segurança e (e agora vem a parte que me irrita) chamando qualquer pessoa que é a favor da polícia de facista, nazista e coisas do gênero.
E dai acabam desvirtuando a discussão, extrapolando o rótulo de facista pra qualquer pessoa com uma opinião mais alinhada à direita. Assim se se pratica uma repressão contra formas diferentes de pensar que me lembram justamente o... ahn... facismo!!
Acontece que vemos segundo os dados oficiais, que o índice de crimes dentro da USP caiu em mais de 90%depois do convênio com a PM. Ou seja, parece que está sim adiantando.



Do outro lado, os “esquerdosos maconheiros

Então vem a mídia mais “formal” generalizando e extrapolando no outro sentido. Sendo a cereja do bolo, em minha opinião, a Veja com a matéria dizendo que: a “Democracia de fardas” foi atacada a pedradas por maconheiros, e que todo o movimento que estamos vendo essas semanas é tão somente pra não deixar prender esses “maconheiros”.  
O pior é que nos comentários dos leitores vi que essa sementinha cresce e cresce e floresce a ponto de ter uma galera criticando a existência em si de cursos de sociologia e filosofia, como antros de maconheiros baderneiros que são inúteis para a sociedade.
(abre parênteses pra um desabafo sobre a democracia de fardas)
Com todo o respeito pelos policiais honestos (que devem ser a maioria), mas “Democracia de fardas” foi foda. Uma vez tive minha casa assaltada e os policiais apareceram mais de uma hora depois, dizendo que não tinham como tentar achar os bandidos por falta de homens (eles tinham a descrição das pessoas e do carro) e disseram inclusive que nem iriam fazer o BO ali que dava trabalho, eu que me dirigisse (sem carro e sem dinheiro) até a delegacia que ficava beeem longe em outro bairro. Estranho, mas até o momento poderia ser verdade. Nem quatro dias depois um rico do mesmo bairro morando a poucas quadras é assaltado e em menos de 10 minutos havia vários camburões e helicópteros rondando (sério). Claro que a culpa não é exatamente dos policiais que estavam fazendo seu trabalho, alguém deve ter tomado as decisões. Mas foi bem democrático mesmo, né? Há vários outros exemplos aqui, mas não é o motivo do post.
(fecha o parêntese do desabafo sobre a democracia de fardas)



Um pouco de histórico

A discussão sobre polícia militar versus universidades é antiga, bem mais antiga do que esse caso dos 3 maconheiros/estudantes de agora. Não acredita? Então vamos lá...
Em um livro chamado “O livro negro da USP” (de autoria coletiva de vários professores) eles remontam essa discussão lá pra década de 40.
Tem quem não acredita nisso, vá lá. Afinal são teorias sobre a função social da universidade e de como a presença de uma força militar coibiria o livre pensamento e tals. Mas são teorias, e cada um acredita no que quiser.
De qualquer forma, ainda no “histórico”, tem dados menos subjetivos do que esse livro (e vários outros), como a listinha abaixo.
>> Apenas nove dias após o golpe militar, o que eles invadiram e quem eles caçaram? Não vou nem responder a essa pergunta retórica. E não foi só essa primeira invasão não, o histórico de invasões à universidades e torturas por parte da ditadura durou muito.
>> Em 1969 o governo criou o “Decreto-Lei nº 477”, elaborado pelo Conselho de Segurança Nacional, especialmente para silenciar estudantes, professores e funcionários das instituições de ensino.
>> Depois, em 1970, a mesma galera da ditadura teve a grande ideia de colocar a Academia de Polícia na entrada da universidade.
>> Dai, em 1973, veio a criação da “Assessoria Especial de Segurança e Informações (Aesi)”. Implantada na USP com objetivo selecionar os funcionários, colher dados sobre atividades subversivas, levantar informações sobre alunos, entre outras cositas más. As invasões de salas de aulas, com prisões de professores e alunos, aumentaram muito. A Aesi acabou em 1982.
>> Dai vem a nova Constituição Brasileira, de 1988, trazendo pela primeira vez o princípio da autonomia universitária plena; Embora ainda muito se discuta até hoje sobre o que seria essa “autonomia plena”, a polícia foi perdendo aos esse papel de controlar o que se passa dentro da faculdade. A tal da “guarda universitária” da USP ganha peso.
>> Em 2009 a PM volta a entrar na USP, devido uma greve pedindo o de sempre (salário, melhores condições, etc, etc). Alguém chuta o final da história? Ela terminou em confronto, balas de borracha, bombas de efeito moral e gás de pimenta.  
>> Em 18 de maio último morre um estudante durante um assalto, e a PM ganha mais presença dentro da USP, assim como as discussões de se ela deve ou não estar lá dentro ganha nova força.
>> Mais recente - e quase acabando a historinha (juro!) - em 8 de setembro agora Antonio Ferreira Pinto (secretário estadual da Segurança Pública), coronel Álvaro Batista Camilo (comandante do policiamento do estado), e pelo professor João Grandino Rodas (reitor da USP)  assinam um convênio aumentando mais ainda a presença militar dentro da USP.
(parênteses sobre o reitor)
Não que seja diretamente ligado, longe disso, mas acho que de certa forma apimenta um pouco essa história o fato de o reitor Rodas ter sido escolhido pelo Serra através de uma nomeação que ignorou a votação da comunidade acadêmica, que teria eleito Glaucius Oliva como reitor. Direito do Serra fazer isso, o resultado da votação é apenas uma sugestão ao governador que é quem decide o nome. Direito dele, mas algo não muito comum depois da ditadura. Tanta polêmica o reitor causou com sua linha dura. Até considerado oficialmente "persona non grata" pela faculdade de direito da USP (aka Largo da São Francisco).  Título inédito, e olha que eles tiveram alguns ditadores lá dentro (e tô falando da São Francisco, não da FFLCH).
(fecha parênteses sobre o reitor)
>> Finalmente chegamos no estopim que gerou às notícias das últimas semanas: 3 alunos estariam portando maconha e as “rondas ostensivas” da PM de São Paulo (quem se lembra da sutileza da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, também chamada de ROTA, levanta a mão) vem gentilmente pedir pra eles os acompanharem até a delegacia (apesar de que porte de drogas não daria prisão, até onde eu saiba). Mesmo com o pedido sendo totalmente gentil e sutil, os alunos, vários professores e vários funcionários perdem a cabeça e saem enlouquecidos contra os policiais bonzinhos que só vêm uma alternativa que seria o uso – de novo – de bombas de gás e tiros de borracha contra a horda de alunos e professores alucinados, ensandecidos e perigosos.
>> Após essa abordagem da polícia, o protesto contra a presença da polícia no campus ganhou escala e finalmente explodiu com a invasão (ocupação?).
Isso falando da história da PM na USP. Se pegássemos, por exemplo, a UNB, a história seria muito maior.
All in all, o ponto é que a coisa é um pouco mais complicada do que: “3 maconheiros tentando acabar com a formação intelectual do Brasil, que felizmente foi salva pela maravilhosa democracia de fardas. Então uma onda de loucura se abateu sobre outros alunos e sobre os professores que querem soltar os maconheiros de qualquer forma”.



Quer discutir? Vamos discutir coerentemente

O resumão é: estou indignado não com a opinião de um lado ou de outro, ou seja, não me indignam opiniões pró ou contra PM em um campus. Eu mesmo ainda não tenho opinião sobre tal. Sério.  
Acho a discussão disso muito bem vinda, por sinal.
Também a discussão adjacente que está surgindo em muitos dos posts que li, sobre a descriminalização da maconha, pode ser interessante e bem vinda. Mas se discutida com seriedade e não com xingamentos e estereótipos.
Estou indignado sim é com a desinformação e as generalizações idiotas que vem sendo feitas.
Algumas frases soltas pra terminar, meio que mostrando minha opinião contrária à muita coisa que andei lendo repetidamente nos comentários por ai:
>> Estudantes da FFLCH, ou quaisquer estudantes de sociologia ou filosofia não são um bando de maconheiros inúteis.
>> Fumar maconha é proibido, é ilegal (embora, até onde sei, não punível por prisão). Mas isso não faz com que a pessoa esteja errada em todo e qualquer aspecto da vida. Dirigir acima da velocidade ou depois de uma cervejinha, ou não dar preferência ao pedestre, também são atitudes ilegais (e que matam muito mais por sinal) e nem por isso todo mundo que dirige assim de vez em quando é um filha da puta que merece morrer e está errado em quaisquer aspectos de sua vida.
>> Comprar num camelô também dá dinheiro para o crime organizado.
>> A discussão sobre se a soberania da faculdade deveria ou não contemplar a ausência de polícia militar dentro da mesma é mais bem antiga do que esse caso dos 3 estudantes e já estava sendo discutida antes (desde a década de 40!). Isso foi um estopim pra a manifestação mais recente (assim como já ocorreram várias outras no curso da história).
>> Uma pessoa que tenha opinião a favor da polícia no campus, sejam quais forem seus motivos, não é um facista tampouco um idiota.  Nem é um idiota aquele que acha que um reforço para a guarda universitária seria a saída.
>> Discutir baseando-se em xingamentos e estereótipos não leva a lugar nenhum, é apenas uma batalha de egos idiota.
>> Mesmo se você acredita que a PM não deveria entrar no campus, uma coisa é fato, a criminalidade aumentou muito dentro dos campi nas últimas décadas. Já temos assassinatos e estupros, e algo deveria ser feito a respeito. Aparentemente a PM coibiu os crimes.
>> A existência de maconha dentro dos campi não é algo novo, não está acabando com o futuro acadêmico (li isso, sério!).  Ela sempre existiu. Existiu e ainda existe em todos os cursos, por sinal, quer sejam de humanas quer sejam engenharias, direito ou medicina. Nem por isso não temos produzidos bons pensadores, médicos, cientistas, idéias, etc.
>> Tem gente que acredita que todo o lance de discutir repressão a maneiras diferentes de pensar está errado por princípio, já que as universidades seriam apenas cursos profissionalizantes que te dão um diploma que por sua vez te dará um salário melhor. Nesse caso preciso opinar, já tenho uma opinião forte contrária a isso, mas apesar de eu ser contra essa linha de raciocínio quem pensa assim tem direito de falar e defender sua opinião sem ser ofendido.
>> Transformar um protesto político (seja a invasão/ocupação a melhor maneira de protesto ou não) que tem como objetivo a retirada da polícia do campus da USP (quer seja esse objetivo algo louvável ou não), em um protesto contra a prisão de maconheiros é, pra dizer pouco, intelectualmente desonesto. Além de ser também uma maneira fácil de levar o grande público a repudiar tal protesto já que o tema 'drogas' quase sempre é um tópico de consenso (como ouvi por ai e estou copiando, aliás), é como Hitler: caso você fale mal dele, sempre estarão ao seu lado e assim fica fácil convencer quem não está acompanhando tudo com senso crítico.

25 Setembro, 2011

Post utilitário: checklist para uma viagem à Zoropa


Ae, tava aqui lavando umas roupas pra começar a fazer as malas pra viagem semana que vem e comecei a organizar mentalmente o checklist. Dai resolvi compartilhar aqui, as vezes ajuda alguém a não se esquecer de nada. É pra uma viajem específica em uma época do ano específica, então adaptem o necessário. 

Muita coisa ai é baseada em albergues e apartamento alugado em países não falantes de inglês (então pode ser difícil comprar em caso de emergência), se for hotel  ou grandes centros onde se fala inglês não precisa tanto.
 
Enjoy!

BAGAGEM
  • Mochila pequena, para passeios (máximo 5kg carregada)
  • Capa de chuva /  Capa de chuva para mochila / guarda chuvas
  • Cadeados pequenos para fechos das mochilas, com segredo ou chave reserva.
  • Cadeado pra armário de albergue com segredo ou chave reserva
  • Etiquetas de identificação da bagagem


ROUPAS
  • Calças jeans, que sejam boas para caminhar e para sair à noite
  • Bermudas (1 ou 2), de preferência com bolsos e de tecido que seque fácil
  • Calça de abrigo (nylon, tac-tel, etc) – opcional (pode ser usada p/ dormir também)
  • Casaco para o frio, de preferência impermeável
  • Bota
  • Cachelol
  • Gorro
  • Luvas 
  • Segunda pele segunda pele e/ou thermal underwear - opcional, mas se for frio é legal pq ajuda bem e quase não ocupa espaço.
  • Camisetas (entre 4 e 8, dependendo da intenção de comprar mais na viagem)
  • Moletom e/ou blusão e/ou bluse de fleece
  • Pijama ou roupa mais confortável para dormir
  • Cuecas (entre 5 e 10, conforme intenção de lavar no banho ou em lavanderias)
  • Meias (entre 5 e 10 pares, conforme intenção de lavar no banho ou em lavanderias)
  • Chinelos (1 par de havaianas, para tomar banho em banheiros coletivos e p/ usar na praia)
  • Tênis (1 ou 2)
  • Boné / viseira / chapeu - opcional, bom para caminhadas no sol
  • Se der , leve coisas que se pode jogar fora depois, assim sobra espaço na mala pra roupas que comprar lá.


HIGIENE e SAÚDE
  • Nécessaires
  • Aparelho de barbear com lâminas suficientes (despachar)
  •  Shampoo (despachar)
  • Sabonete com porta-sabonete ou líquido (para não ficar grudando no papel a cada uso)
  • Toalha de banho leve (para secar rápido)
  • Pasta de dente
  • Escova de dente / Fio Dental
  • Pente ou escova
  • Colírio
  • Protetor solar (despachar)
  • Manteiga de cacau (para os lugares com frio, muito sol ou vento). Dependendo da pele, leva hidratante também.
  • Talco (para pés e tenis)
  • Cotonetes
  • Cortador de unhas (despachar)
  • Lenços (para quem tem rinite)
  • Remédio para dor de cabeça, de estômago, diarréia, engov, epativan, dramin, alergias (claritin, por exemplo) e gripe (quantidades pequenas)
  • Remédios de uso contínuo (quantidades pequenas e com receita médica)
  • Vitaminas
  •  Band-aid
  • Desodorante
  • Lentes de contato e/ou óculos de grau
  • Produtos para limpeza e conservação de lentes de contato (máximo 120ml)
  • Óculos de sol e capinha do óculos pra guardar na mala
  • Repelente
  • Papel higiênico


ACESSÓRIOS
  • Máquina fotográfica
  • MP3 player (não esqueça do fone de ouvido)
  • Pilhas extra
  • Carregador de pilha
  • Cabos dos carregadores
    • Celular
    • Xoom (meu tablet rs)
    • MP3 player
    • Câmera
    • etc
  • Livros e quem tiver, lanterna de leitura
  • Cartão de memória
  • Celular habilitado para roaming internacional - opcional
  • Carregador de celular
  • Xoom
  • Carregador de Xoom
  • Adaptador universal de tomadas
  • T ou beijamin
  • Porta dólares (hidden bag)
  • Passagens e voucher do seguro de saúde
  • Caneta (é sempre bom ter uma para preencher formulários ou anotar informações)
  • Relógio com despertador (lembrar de ajustar o fuso horário assim que chegar no lugar)
  • Guia de viagem, mapas, etc.
  • Agulha e linha para pequenos consertos de vestuário ou bagagem
  • Canivete – opcional (despachar com a bagagem)
  • Saca rolhas - (despachar com a bagagem)
  • Carteira
  • Sacolas plásticas para separar roupas molhadas ou sujas
  • Secador de cabelo, pra quem usa


DOCUMENTAÇÃO
  • Passaporte com validade mínima de 6 meses (levar passaporte antigo também, se tiver)
  • Cópias do passaporte, para caso de perda (deixar na mochila ou outro lugar seguro)
  • Carteira de motorista (para aluguel de carro, com no mínimo 5 anos)
  • Documento de identidade nacional (para deixar como garantia quando necessário)
  •  Cópias de contracheques, extratos bancários e/ou Imposto de Renda (para a imigração)
  • Outras provas de capacidade econômica (limite do cartão, propriedade de veículo, etc.)
  • Passagens aéreas de ida e volta (e cartão de fidelidade da empresa, para crédito das milhas)
  • Seguro de saúde e bagagem com cobertura mínima de EUR 30.000,00
  • Nomes, endereços e demais informações de cada albergue:
    • Paris
    • Praga
    • Brno
    • Budapeste
    • Amsterdan
  • De 50 a 100 Euros ou dólares (para pequenas despesas antes de sacar nos caixas automáticos)
  • Reais para pequenas despesas no trecho no Brasil (comida, táxi, ônibus)
  • Cartões de crédito (de preferência 2, um para todo dia e outro para guardar para eventualidades), com limite razoável e validade para pelo menos 2 meses depois do fim da viagem
  • VTM / Travel checks
  • Lista com telefones de de embaixadas ou consulados em cada país
    • França
    • Rep. Tcheca
    • Hungria
    • Holanda
  • Lista com códigos de acesso a cobrar para o Brasil pela Embratel para cada país
    • França
    • Rep. Tcheca
    • Hungria
    • Holanda

COISAS A FAZER ANTES
  • Confirmar vôo com 2 dias de antecedência
  • Fazer o checkin online (dependendo do modelo de avião dá pra saber os lugares mais espaçosos na internet)
  • Ligar no banco/cartões de crédito informando da viagem
  • Checar VTM e senha
  • Se for ficar muito tempo em um lugar só, verificar preço de chips pré pagos pro celular, de preferência com plano de dados
  • Ligar para operadora de celular informando da viagem
  • Pagar ou agendar pagamentos durante a viagem
    • aluguel
    • cartão de crédito
  • Mandar e-mail pra todos os albergues confirmando que estamos saindo
  • Registrar produtos eletrônicos na Receita Federal nos aeroportos antes de viajar
  • Ficar esperto com regras sobre o que pode levar pra cada país, em especial comidas. E ficar esperto com as regras do aeroporto (sem líquidos na bagagem de mãos e tal, bem como peso da mala) 
  • Importante: quem vai pegar vôos internos na Europa verificar o limite de peso e bagagem desses vôos também. Normalmente os Low Cost vão te deixar levar muito menos do que o vôo do Brasil.
  • Quem quiser fazer comprar maiores, se informar sobre políticas de devolução de impostos (grandes chances de ter que mostrar o passaporte na hora da compra).
  • Cuidado com metal nas roupas, devido ao raio x do aeroporto. Nunca passei por isso, mas já vi gente tendo que tirar cintos e o escambau.
  • Pesquisar sobre os locais a visitar pra chegar conhecendo um pouco e não perder muito tempo:
  • Pontos turísticos
  • Regiões com pubs
  • História e algo da língua local (pelo menos um "obrigado", "desculpe", "não falo XXX", etc).
  • Hábitos, comidas e bebidas locais
  • Previsão do tempo na época da viagem
  • Dicas de segurança

22 Setembro, 2011

Android Development tool: MOTODEV Studio

This is a different post. In so many ways... 
  • This post is a kind of advertisement, but it is an advertisement of a great product: useful, free, no tricks involved, etc. And this is the product I’m working on! (We are a good team developing it, believe me).    
  • It is technical. Am I a tech guy by profession, but I use to use this blog for other discussions. 
  • It is in English :)

Let’s go! 

Android Development 

If you got here you are interested in AndroidTM development, which is great since Android is a very nice and powerful operating system. 

In fact Android is more than an OS, it is a software stack for mobile devices (may be not so mobile in the future) that includes the operating system, middleware, and key applications. Android also provides you a market that makes it easy for you to distribute and sell your applications.

If you are new to all of it, take a look at these links: 

I have this feeling that so far it was all blablabla for you. After all you already know what Android is, right? 

So what about development?  Off we go. 

First thing you need is to have the Android SDK (software development kit), and to understand the Android basics and architecture. Begin by the Dev Guide. For the development environment, you will probably use Eclipse

Android provides you a set of plugins called ADT that helps you a lot providing the basics for Android development. Here you will see a step by step on how to install the ADT plugins into your existing Eclipse installation to make it Android aware. 

But before going there, take a quick look at the next section. 

MOTODEV Studio for Android

Although Eclipse is great and ADT plugins are great, you can have a more complete and in-a-box experience with MOTODEV Studio for Android. 

It is a IDE (Integrated Development Environment) based on Eclipse, that lets developers who are new to Android get started quickly and helps experienced developers get the job done even faster. 

Some important points about MOTODEV Studio for Android: 
  • It is free! Really. You need to create an MOTODEV account and for that you only need an e-mail. With that account you be able to: download Studio, participate in development forums and some more.  
  • It is for Android development, in general. So, yes, you will be able to create applications for each and every Android device, not only devices from Motorola Mobility, Inc. And your apps are pure Android, no tricks.  
  • It does not compete with Eclipse. And it does not compete with Google ADT. It works together with those, complementing the existing features with some nice stuff. If you install MOTODEV Studio from scratch (not over an existing Eclipse installation) you will be installing Eclipse plus ADT plus some other features that composes MOTODEV Studio for Android. The only difference is that it will happen on a single step.  
  • As it was implicit on the previous bullet, there are some other features and possibilities with Studio. For a new developer it will help you with samples, code snippets, wizards to create most common application components and more. For the experienced ones there are features to help you to test, help you localize your apps, perform static analysis, create apps faster, and more. 

That all said, my suggestion is for you to try it: 

After trying, if you want just appear in the discussion boards for a chat, for questions, suggestions (they will be heard) for help with development… well… you got it. 

To keep updated with the product latest news, check out the blog.



Android and Android Market are trademarks of Google Inc. 
MOTODEV Studio and its documentation are copyrights from MOTOROLA Mobility, Inc.