07 novembro, 2010

A Banda em Fuga!


Sim, teoricamente, eu escrevo para este blog! O Matheus me incluiu na lista dos autores, mas até hoje eu nunca havia colaborado com nada... até hoje. Não é por acaso que minha primeira contribuição seja uma aventura no campo da crítica de rock; afinal, o jornalismo musical foi meu sonho de consumo, em termos profissionais, durante boa parte da minha adolescência.

O que isso interessa? Não muito. Ainda assim, como gastei uns minutos escrevendo sobre um disco clássico do Paul McCartney, decidi subir o texto pra cá. Então, com vocês, "A Banda em Fuga". ;)


Novembro de 2010. Os beatlemaníacos estão todos eufóricos, com a proximidade dos shows do Paul McCartney no Brasil. Eu estou. Com esse clima de euforia, as reações mais típicas dos fãs, é claro, é a defesa da importância de Sir Paul McCartney (ou, para quem é fã de verdade, me disseram, apenas “Paul”) para a música pop do século XX. Membro de uma das mais conhecidas e influentes bandas de rock de todos os tempos, compositor milionário com sucesso comercial imbatível, recordista disso e daquilo. Para seus detratores, ele é a representação encarnada de tudo que é brega e cafona. Um dinossauro, um velhote que deveria ter se aposentado há tempos.

Acho uma besteira ficar defendendo alguém que realmente não precisa da meu apoio; um atualmente ancião que já entrou para a História antes de ter a idade que eu tenho. Gostando ou não da obra dos Beatles, é preciso reconhecer que antes de fazer trinta anos, McCartney já tinha feito tudo e mais um pouco, ajudando a redefinir o rock e o pop. Portanto, sem mais comentários sobre o homem. A música é o ponto aqui.

Após o término dos Beatles, McCartney lançou alguns singles memoráveis (Maybe I’m Amazed, por exemplo) e alguns discos medianos. Os discos McCartney, de 1970, e Ram, de 71, compreensivamente pairavam em algum lugar entre o som dos Beatles e uma tentativa de encontrar uma identidade musical mais pessoal. Algo estava faltando.

Macca, então, construiu em torno de si uma nova banda, o Wings. Linda McCartney estava ali, convertida de fotógrafa de celebridades em tecladista; Denny Laine, ex-guitarrista do Moody Blues também. Em torno desse núcleo, orbitava uma formação pouco estável de músicos talentosos, mas ainda assim o conjunto todo demorou para atingir a maturidade e identidade suficientes para espantar o fantasma do Fab Four. Mesmo Live and Let Die, rockão da trilha sonora do filme homônimo da série James Bond, ainda contava com a presença do quinto Beatle George Martin na produção.

Band on the Run, disco de 1973, relançado muitas vezes e em versão remasterizada neste ano, marcou a criação de uma identidade sonora e conceitual para a nova banda de McCartney. Musicalmente, é o retrato de um McCartney seguro de sua identidade pós-Beatles. Como todo bom disco de McCartney, tem ótimas canções, apoiadas em um e outro “filler”, meio bobo e descartável. Faixas como Bluebird e Mamunia hoje soam ultrapassadas e ingênuas. Band on the Run, porém, está baseado numa trinca matadora - a faixa-título, Jet e Nineteen Hundred and Eighty Five - que por si só já valem a audição. E ainda assim, vale lembrar, o panorama formado pela conjunto e ordenação das faixas mantém uma vitalidade insuspeita.




Curiosamente, o ápice do Wings surgiu de sua desconstrução. A aura e o apelo de Band on the Run devem muito também aos curiosos detalhes de sua gravação: a banda fugiu, sim! Fugiu de Paul McCartney que excentricamente (e antecipando a febre posterior da world music?) decidiu realizar a gravação em Lagos, na Nigéria. Henry McCullough e Denny Seiwell, guitarrista-solo e baterista, não se animaram com a perspectiva da viagem africana de McCartney e, segundo a lenda, abandonaram a banda no aeroporto. Com isso, restaram Paul, Linda e Denny Laine, em uma viagem exótica para a África, com o engenheiro Geoff Emerick a tiracolo.

Os estúdios da EMI em Lagos eram precários, para dizer o mínimo. Mesas de oito canais apenas e nenhuma adaptação para a gravação dos vocais (McCatrney sempre afirma que teve que instruir a gerência do estúdio sobre o processo de construção de uma vocal booth). Se o clima não era o esperado pelos gringos - eles aportaram na Nigéria em setembro, na estação de chuvas - a recepção dos nigerianos também não foi nada calorosa: McCartney e sua trupe foram assaltados, perdendo fitas com horas e horas de gravação, e ameaçados na base da faca por músicos locais, receosos de que os ingleses fossem plagiar produções locais, sem o devido pagamento de royalties. Sem dúvidas, as circunstâncias desastrosas das gravações concedem ao produto final uma identidade comparável com outras grandes obras do rock: Sgt. Peppers, The Dark Side of the Moon (Pink Floyd), Exile on Main St. (Rolling Stones), ou o inacabado Smile (Beach Boys). Junto com a música, fica uma história.

A influência regional procurada por McCartney, no entanto, aparece apenas levemente, em faixas como Bluebird, Mamunia e Mrs. Vandebilt, carregadas de percussão. O restante do disco é tipicamente inglês, algumas vezes rock’n’roll - Let Me Roll It e No Words - e algumas vezes grandiloqüente e orquestral (destaque para a faixa final, e para as delicadas clarinetas de Picasso’s Last Words) Obviamente, as orquestrações, a cargo do tradicional parceiro de David Bowie, Tony Visconti, foram realizadas posteriormente, com a banda já de volta à Inglaterra.

Também de volta à terra da Rainha, o toque final para a criação de um disco clássico: a capa. Nela, Paul, Linda e Denny aparecem em uniformes de presidiários, iluminados como se estivessem em fuga, acompanhados de um casting de celebridades, como os atores James Coburn e Christopher Lee.

O resultado disso tudo? O disco vendeu como água e garantiu, de uma vez por todas, a identidade dos Wings como sendo não uma cópia dos Beatles, mas a nova empreitada do sabidamente egocêntrico e perfeccionista Paul McCartney. É fato que algumas das canções não envelheceram bem, mas o conjunto da obra compensa: já na abertura, com a dobradinha Band on the Run e Jet, o Wings estabelece uma gramática que segue pelo disco inteiro. Oscilando entre o acústico e percussivo, mas pegando forte nas guitarras e nos sintetizadores, Band on the Run me parece um bom retrato musical de sua época - e, desta maneira, historicamente relevante, mesmo quando ultrapassado.

Além das tradicionais e competentes linhas de baixo e solos de guitarra, McCartney demonstra como nunca sua identidade como baterista: se em Back in the USSR e Dear Prudence ele emulou Ringo Starr, em Band on the Run, os contratempos e viradas, e a ausência da presença normativa de um produtor, revelam um estilo próprio. Por fim, o já conhecido pianista McCartney ressurge com força total na última faixa do disco, Nineteen Hundred and Eighty Five. Nela, num clima proto-disco, McCartney e o Wings afastam-se, definitivamente, da idéia de um substituto incompleto dos Beatles. Band on the Run tinha vida própria.

Nos shows brasileiros do Paul, ainda que a euforia dos fãs talvez seja aplacada apenas com os sucessos dos Beatles, certamente eu vou esperar ansioso por uma, duas ou três músicas de Band on the Run, para alguns críticos (e para este crítico amador) um dos melhores discos daqueles quatro senhores que fizeram parte dos Beatles.

Jet!




26 outubro, 2010

Polícia no campus da Unicamp, de novo....


Esses dias, li essa notícia:


Logo depois, recebi essa nota num e-mail:
No fim da tarde desta sexta-feira feira, 22/10, membros do CAECO e da ATLÉTICA foram procurados pelo Orlando, nas escadarias do Instituto, que, sob o pretexto de manter contato, pediu uma relação de nomes e emails dos integrantes dessas instituições. Além disso, pediu nomes de membros da gestão passada de ambas.

Após conseguir o que queria, ele revelou para os alunos que a situação, na verdade, se tratava da reabertura de um inquérito policial para apurar uma denuncia de barulho após as 22h, feita pela procuradora da UNICAMP em novembro de 2009, por conta do suposto encontro de baterias no ano passado. A referida procuradora dirigiu sua denúncia contra responsáveis que ela identificou através de um cartaz entregue ao delegado de Barão Geraldo: IE, FCM, IA, IFCH e Engenharias. Isso gerou um trâmite similar na diretoria de cada Instituto e Faculdade.

O processo que chegou às mãos da direção do IE continha três documentos (anexados). O primeiro registrava a denúncia da procuradora junto à delegacia de Barão. O segundo trazia um pedido do delegado para que a reitoria da Unicamp informasse à polícia os nomes de possíveis envolvidos no tal encontro. Numa terceira folha a reitoria exigia, com prazo de cinco dias corridos, que o diretor do Instituto entregasse os nomes de quem ela julgava, à priori, possíveis responsáveis pelo evento: a gestão do centro acadêmico. Esta última datava do dia 20/10, 4a-feira.

Notem que a reitoria pediu ao diretor Mariano Laplane nomes dos membros atuais do CAECO. Mas ele sabia que: a) a bateria era da Atlética e não do CAECO; b) Que se tratava de algo relacionado à gestão passada e não da atual. Por livre iniciativa ele foi atrás de quem julgou serem os responsáveis.

Fomos informados pelos próprios professores que alunos da gestão passada da Atlética e possivelmente do CAECO receberam emails convocando-os para uma reunião na segunda-feira (25/10). Assumimos que seja de manhã porque à tarde, 14h30, ocorrerá a reunião da Congregação, presidida pelo Diretor.

A direção tem nomes da gestão passada da Atlética e do CAECO. Os alunos estão sendo perseguidos de duas maneiras: a) Judicialmente, pela polícia, por causa do barulho após as 22h00; b) Disciplinarmente, pela reitoria, pela venda de bebidas alcoólicas no campus e organização de festa fora dos regulamentos colocados pela universidade. Portanto, os alunos considerados envolvidos poderão ser jubilados, além de ter de responder criminalmente.

O que se passa é que a Associação dos Moradores (AMOC) têm se esforçado para transformar Barão Geraldo num bairro pacato para ser uma boa área de expansão imobiliária para grandes condomínios. Esse esforço passa por disciplinar a UNICAMP e transformar a universidade em um colégio, reprimindo qualquer manifestação cultural, desde a festa do Festival de Artes do IA até encontros de baterias. Não se nega que a reitoria receba pressões externas, contudo, inegavelmente ela lançou mão de uma agenda própria para coibir esses espaços no campus, implantando um projeto específico de universidade.

Agora as coisas estão se resolvendo pelo caminho de menor resistência, ao invés da reitoria enfrentar a especulação da AMOC, sai à caça de estudantes que não fizeram nada mais do que ocupar o espaço público com o qual eles estão envolvidos em prol de manifestações culturais e comunitárias.

A direção do Instituto é declaradamente contra as iniciativas dos estudantes. O vice, Cláudio Maciel, era chefe da comissão da reitoria para apurar e punir estudantes organizadores de eventos. O diretor Mariano Laplane fez considerações sobre as festas no campus, declarando-se abertamente contrário. Também disse não entender porque estudantes se posicionariam contrariamente ao democrático estado de direito brasileiro e sua polícia para defender o direito de “fazer barulho”.

A gestão do atual reitor, Prof. Fernando Costa, é muito mais truculenta que a de seus antecessores. Na noite de quinta feira, ao mesmo tempo em que a polícia invadia o campus para dissolver uma festa, PM’s invadiam residências da Moradia Estudantil sem mandato, na calada da noite.

Pra completar li comentários sobre essas notícias, vindo de amigos que respeito, dizendo que está certo. E que a polícia tinha mais é que bater nos estudantes.. 

Polícia no campus

Fico triste... parece que não temos muita memória, que esquecemos tudo que aconteceu durante a ditadura, por exemplo... 

Isso partindo para uma discussão mais sutil: a presença da polícia num campus universitário, com intuito de coibir manifestações sociais/culturais. Cara, que absurdo uma coisa dessas... ainda se a desculpa fosse coibir assaltos e/ou estupros eu levaria com um pouco menos de ceticismo (embora ainda não concorde, por motivos mais filosóficos).

Me lembrou de uma viagem que tive um tempo atrás: ao visitar o presídio na Ilha Grande, em Angra, estava tudo destruido. Depois, visitei os campos de concentração na Polônia e estavam preservados. Mas era um clima tenso, pesado... Fiquei me perguntando porque mantiveram "aquilo". Na saída vi a resposta numa placa: "Aqueles que não aprendem com seu passado estão condenados a vivê-lo novamente".

Não sei quanto a vocês mas eu conheço pessoalmente pessoas torturadas e tals pela ditadura. E lembro-me vagamente dos movimentos de diretas já... 

Quer dizer, não é uma coisa tão longe assim. É que preferimos esquecer mesmo...

Barão Geraldo

Mas o foco principal desse post é mais específico, num to a fim de discussões intermináveis quanto a independencia cultural de uma universidade... Queria refletir um pouco sobre alguns pontos mais específicos e próximos.

Nesse sentido, o legal é que pra fazer inquérito contra estudantes tocando bateria dentro de uma faculdade, ou sobre estudantes de artes fazerem um festival de artes, tem polícia sobrando. Inclusive, continuar investigando hoje pra punir alguns estudantes que tocaram bateria dentro da faculdade depois das 10 da noite em 2009!

Quando eu ainda morava em Barão e alguém invadiu minha casa pra olhar pela janela do quarto de minha irmã, a resposta foi: "Quem manda morar com mulheres? Eles vêm ver mesmo, não temos pessoal pra resolver isso e fazer BO dá muito trabalho" Tempos depois ficamos sabendo de estupros... Será que com os anos, os bandidos não aprenderam que poderiam entrar, em vez de só espreitar pela janela, já que a polícia não viria mesmo?

Ou quando fomos assaltados e descobrimos ser a 17 república assaltada NAQUELE DIA, a resposta: "Não temos o que fazer, nem homens pra isso" Que tal passar um rádio com a descrição do carro e dos bandidos? Ou é pedir muito? Um BOzinho só pra constar, mataria alguém? Mas não, dá muito trabalho...

Claro que na semana seguinte assaltaram o dono da Frutaria (estabelecimento comercial tradicional do bairro e provavelmente com seguro) e em menos de 5 minutos tinham vários camburões e 2 helicópteros rodando o bairro... Apesar de que a maioria dos moradores não estudantes e membros da AMOC pagam sua miliciazinha armada particular, então nem precisam tanto assim da polícia. 

Mesmo essa cruzada da AMOC contra estudantes parece não se lembrar do passado. O que seria de Barão Geraldo sem a Unicamp? Alguém lembra?

E o que me entristeceu, na verdade, é que tem gente que ainda acha normal: vamos lá, acabemos com as festas, com os festivais, com as músicas, com as baterias... Paguemos nossas milícias pra nos proteger já que temos dinheiro pra isso. E paguemos os seguros, da casa e do carro, já que temos dinheiro pra isso. Os outros que se fodam. E torçamos pra que a próxima notícia de estupro não envolva nossa familia (porque dai teremos o trabalho de termos que nos revoltar com a situação). 

E fiquemos trancados em casa vendo novela (isso é, se ainda surgirem atores pra gerações futuras, talvez surjam desde que ensaiem bem quietinhos e fora das faculdades).






08 setembro, 2010

No goats, no glory


Mais uma dica de algo que achei meio aleatoriamente e curti bastante. Como pelo menos pra mim era desconhecido, acho que vale deixar a dica...

Passando pela locadora no feriadão (depois de muito problema pra estacionar) deparei com um filme chamado “Os Homens Que Encaravam Cabras”. Achei bem curioso o título e mais ainda o elenco: Jeff Bridges, George Clooney, Kevin Spacey, Ewan McGregor ... e... a cabra.

Enfim... é uma comédia criativa, com algumas várias referências à cultura pop cinematográfica: flerta bastante com o Dr. Fantástico, com o Star Wars (especialmente com o fato do MacGregor ser um Jedi),  o personagem do Bridges me lembrou muito seu personagem em O Grande Lebowski... Ahh, claro, eles citam o famoso Dim Mak, o toque da morte, do Grande Dragão Branco (mas nesse filme o golpe tem um mecanismo de funcionamento deveras interessante), e por ai vai...

O enredo mostra um jornalista atrás de uma história (e, mais do que isso, buscando uma motivação ou sentido pra sua vida) e acaba descobrindo alguns soldados remanescentes de uma experiência do exercito norte americano. A "experiência" consistiu em treinar/utilizar soldados com poderes paranormais. Aliás, a explicação sobre o porquê dessas pesquisas com o paranormal é divertida (e meio sarcástica). Esses soldados fazem coisas como: visão remota, atravessar paredes, dissipar nuvens, e... matar cabras com um olhar

A história é contada em flashacks dos anos 80, mostrando o treinamento desses super-soldados, com passagens no Iraque de “hoje”. Os flashbacks são a melhor parte do filme.
 
Várias críticas à guerra e à “condição humana”... No filme, por exemplo, é meio que fato consumado que os Estados Unidos tem a obrigação moral e quase divina de salvar o mundo, nem que pra isso use seu exército.
 

Como disse antes, gostei bastante dos flashbacks,  principalmente se encarados meio que como esquetes individuais. Do meio pro fim a amarração se perde um pouquinho, sei lá... Mas não compromete. Principalmente por ser um pouco diferente e bem feitinho já vale a pena.

Lendo na net depois, achei algo curioso: diz o Cloney em algumas entrevistas que grande parte do filme é baseada em fatos reais, especialmente as partes mais esdrúxulas. Será que o exército tentava matar cabras com encaradas??

30 julho, 2010

Bang Bang, Faroeste, etc e tal

Listas, mais listas (será que rola uma lista de listas?)

Pra quem quiser fazer um catch up com os clássicos do western:
Era Uma Vez no Oeste (Sergio Leone, 1969)
Três Homens em Conflito (Sergio Leone, 1966)
Os Imperdoáveis (Clint Eastwood, 1992)
Meu Ódio Será Sua Herança (Sam Peckinpah, 1969)
Sete Homens e um Destino (John Sturges, 1960)
Butch Cassidy (George Roy Hill, 1969)
O Homem que Matou o Facínora (John Ford, 1962)
Por uns Dólares a Mais (Sergio Leone, 1965)
Por um Punhado de Dólares (Sergio Leone, 1964)
Os Invencívies (Ji-woon Kim, 2008)
Os Indomáveis (James Mangold, 2007)

21 julho, 2010

Filme do Tio Mário: O Espírito da Coméia

Lá vai o Filme do Tio Mário da semana. Quem num sabe o que é um "Filme do Tio Mário", por favor leia a intro desse post.

O Espírito da Colméia
Aproveitando os auspícios da Semana da Criança e ainda sob os eflúvios do nascimento do meu segundo filho, não poderia deixar de citar o meu filme favorito contando com crianças como protagonistas. E olhem que a concorrência é  braba: de "O Garoto" a "Sexto Sentido", passando por "ET", a lista é imensurável. Mas este "O Espírito da Colméia" (Victor Erice, Espanha, 1973) é realmente genial.

Erice é, como J. D. Salinger e Raduan Nassar na literatura, ou Terence Malick e Kubrick (este na segunda fase da carreira) no cinema, um diretor nada prolífico. Em 35 anos, dirigiu apenas 3 longas, mais 3 episódios em filmes multidirigidos.

"O Espírito da Colméia" resumidamente é isso: numa pequena vila na Espanha franquista de 1940, enquanto seu pai estuda o comportamento das abelhas em uma colméia e sua mãe escreve cartas para um destinatário inexistente (ou seja, o ambiente doméstico não era lá grande coisa), Ana e Isabel vão assistir ao Frankenstein, de James Whale (grande clássico do horror com Boris Karloff) em um cinema móvel (tipo circo, mesmo) que visitava a vila. Embora não tenham entendido direito ao filme, as meninas (que devem ter entre 6 e 8 anos) ficam muito impressionadas com a cena em que o monstro dá uma flor a uma menina. Isabel, a irmã mais velha, diz a Ana que o monstro (Frankenstein) efetivamente existe na forma de um espírito que não pode ser visto, a não ser que se conheça o modo correto de se aproximar dele. Ana começa então sua busca pela gentil criatura nos arredores da vila, só que, ao invés dele, encontra um desertor do exército escondido em um celeiro. Ana decide então ajudá-lo, alimentando-o e vestindo-o, julgando que o forasteiro seja de fato o "espírito".

Ana Torrent, que interpreta Ana, depois, ainda criança, fez dois belos filmes com Carlos Saura ("Cria Cuervos" e "Elisa, Vida Minha"). Quando criança, foi uma atriz absolutamente comovente. Recentemente pude assisti-la protagonizando "Thesis - Morte ao Vivo", do Amenabar. Ela até que foi muito bem, mas certas atrizes simplesmente não deveriam crescer...

Um filme maravilhoso, próximo da perfeição, completamente poético e, imagino, dificílimo de encontrar. Visto no Carbono 14, antigo reduto underground de São Paulo, nos anos 80. 

14 julho, 2010

Filme do Tio Mário: Malpertuis

Lá vai o Filme do Tio Mário da semana. Quem num sabe o que é um "Filme do Tio Mário", por favor leia a intro desse post.
O Cineclube de Bexiga ficava na Rua Treze de Maio, em São Paulo. A "Treze" era a meca dos bichogrilos, roqueiros, alternativos, boêmios, enfim todas as tribos tinham seu espaço nessa pequena babel cultural de São Paulo nos anos 80. Mas o principal, pelo menos prá mim, era o cineclube. Pequeno, acanhado, com somente um antigo projetor que obrigava a um intervalo forçado para troca de rolos no decorrer da sessão, foi um dos locais que me deram a chance de descobrir a Nouvelle Vague, Bergman, Neo-Realismo, etc.

O cineclube tinha um livro de visitas, onde os freqüentadores escreviam de tudo: poemas, críticas e principalmente, pedidos de filmes. O nome "Malpertuis" enchia páginas e páginas. Parece que quem tinha visto o troço nos anos 70 - aparentemente houve uma exibição do filme em alguma mostra ou ciclo especial - não esquecia. Eu, tomando meu café (é, o cineclube tinha um minúsculo coffee bar), ficava folheando este livro e morrendo de curiosidade para assistir o tal do Malpertuis (França/Bélgica/Alemanha, Harry Kümel, 1972). Numa próxima vez volto a falar do cineclube.

A oportunidade aconteceu na  9a Mostra de Cinema de São Paulo, em 1985. Lá estava ele, programado...e lá fui eu, assisti-lo. Prá início de conversa, existem diversas versões do filme. A última, restaurada pelo diretor e exibida em 2002 na Europa, é totalmente falada em flamengo, ao que parece o idioma original do filme (o diretor é belga). A que assisti no cinema, se bem me recordo, era falada em francês, com legendas em espanhol. Mas existem versões reduzidas, ampliadas, dubladas em inglês, alemão ou holandês - o que sem dúvida só contribui para aumentar o caráter cult do filme.

A trama é essa: Malpertuis é um castelo "assombrado", labiríntico e inescapável para quem o habita. Cassave (Orson Welles, excelente e completamente preguiçoso) está em seu leito de morte e deixa em testamento uma fortuna considerável para seus herdeiros, os quais devem por contrato viver até o final de seus dias em Malpertuis. Jan, um sobrinho de Cassave recém-chegado ao castelo, constata a estranheza dos tipos que compõe sua "família" - mistérios que serão revelados ao final da epopéia (aliás é um final daqueles reveladores e apoteóticos).

Os principais elementos utilizados pelo diretor são a composição surrealista e a mitologia grega, temas caraterísticos de Jean Ray (também belga, assim como o diretor Kümel), um dos melhores escritores europeus de literatura fantástica. Na minha impressão, um filme exemplar, de visual belíssimo e inventividade assombrosa, marcas do diretor Kümel, de quem depois acabei assistindo o anterior "Lábios de Sangue" (também chamado no Brasil de "As Escravas do Desejo" - Les Rouges aux Lèvres, Bélgica/França/Alemanha, 1971), também excelente e sobre...vampiras !!! Mas esse fica prá outro dia...

Uma boa notícia é que, com uma boa garimpagem, pode-se conseguir o VHS nas locadoras. Foi lançado como "Malpertuis - Estranhas Fantasias", acredito que pela Globo Vídeo. Boa sorte !!!!

[Math, de novo] Relendo essa dica hoje, lembrei que agora tenho o "As Escravas do Desejo"  (Les Rouges aux Lèvres) também citado acima. Tá guardado, ainda não assisti. Baixei numa leva de filmes de vampiras que peguei uma vez. Agora vai ganhar prioridade na minha fila dos a ver

06 julho, 2010

Filme do Tio Mário: O Quarto Homem

Lá vai o Filme do Tio Mário da semana. Quem num sabe o que é um "Filme do Tio Mário", por favor leia a intro desse post.



Engraçado, este filme foi o maior hype da 8a Mostra de Cinema de SP (em 1984, quando tive a oportunidade de assistir), e nunca foi lançado comercialmente no país. Soube que, em outubro de 2004, o Carlos Reichenbach promoveu uma sessão deste filme no CineSesc (não me perguntem como ele arrumou esta cópia, com legendas em inglês - deve ser a mesma que exibiram em 1984 !!!) e quem sabe alguns de vocês de Sampa e arredores tiveram a chance de ver.

Mas voltando à vaca fria, "O Quarto Homem" (De Vierde Man, Holanda, 1983) é o sexto longa do diretor Paul Verhoeven (antes já tinha feito por exemplo os elogiados "O Soldado de Laranja" e "Spetters" - se não me engano o Gilmar da lista assistiu este último e pode dar seu pitaco), que depois se bandeou para os States e fez coisas bem legais como "Robocop", "Instinto Selvagem" e "Total Recall" e também algumas cacas como "Showgirls".

A história é basicamente essa:  Gerard (Jeroen Krabbé) é um controverso escritor homossexual, católico e alcoólatra. Ao romper brutalmente com seu jovem amante, entra em crise e começa a ter constantes alucinações de ordem mística e ultrajante, referentes ao seu catolicismo. Ao ser convidado para proferir uma palestra em uma pequena estância balneária, acaba sendo seduzido pela cabeleireira Christine (Renée Soutendijk), uma estranha e sensual viúva, suspeita de ter assassinado os três maridos anteriores. Gerard se descobre mergulhado num pesadelo de blasfêmias e ambíguos desejos homoeróticos.

Bem, essa foi uma sinopse adaptada do Reichenbach. O filme é beeeem mais que isso, possui toda uma atmosfera de mistério e sensualidade. Tem um clima estranho, gótico, misturando thriller, drama, comédia. O roteiro é muito original, privilegiando o misterioso passado de Christine e o atribulado presente de Gerard. O erotismo é intenso e as cenas de delírio de Gerard são completamente antológicas.

Assim como o "Basket Case", da semana passada, quem puder me arrumar uma cópia deste filme eu agradeceria muito.