29 janeiro, 2010

O Mito da Caverna, ou, sobre a foto


Um tempo atrás escrevi um post chamado Je pense, donc je suis , no qual explicava (mais ou menos) o nome do blog.

Chegando no trabalho, depois, o Dandan me perguntou o motivo da foto do topo do blog. Ele fez essa pergunta  provavelmente achando que viria alguma explicação pseudo-filosófica, pedante (e prolixa) como meus textos. A resposta foi mais simples: "Sei lá, olhei minhas fotos por cima e escolhi essa".

Se mais alguém estiver curioso, a foto é de uma janela da Hagia Sofia (a mesma igreja da foto aqui desse texto), que tirei numa visita a Istambul, tirada de dentro pra fora.

Enfim, conversando com ele na hora, resolvi me impor o desafio de procurar a tal resposta pseudo-filosófica e prolixa, resposta falsa claro, mas só pra ver se eu conseguiria me sair bem. Pensei um pouco e cheguei no Mito da Caverna, de Platão. Claro que o que falei pra ele na hora (assumindo que seria uma desculpa falsa) não foi tão elaborado, mas agora com tempo de pesquisar saiu esse texto abaixo:


O Mito da Caverna

O mito da caverna trata-se de uma parábola sobre como podemos nos libertar da condição de escuridão que nos aprisiona, através da luz.

É mais ou menos assim: Imaginemos um muro bem alto separando o mundo externo e uma caverna. Na caverna existe uma fresta por onde passa um feixe da luz exterior. No interior da caverna permanecem alguns seres humanos, que nasceram e cresceram ali.

Esses humanos ficam de costas para a entrada, olhando somente para a parede do fundo da caverna, onde são projetadas sombras de outros homens que, além do muro, mantêm acesa uma fogueira. Os homens da caverna julgam que essas sombras sejam a realidade (já qie isso é tudo ao qual eles tem acesso, olhando sem questionar).

Um deles decide abandonar essa situação e foge dali. Aos poucos vai se movendo e avança na direção do muro e o escala, com dificuldade enfrenta os obstáculos que encontra e sai da caverna, descobrindo não apenas que as sombras eram feitas por homens como ele e, mais além, descobrindo todo um mundo.

Olhando pra obra de Platão, dá pra dar um chute sobre a essência dessa história. Sob a influência de Sócrates (se é que ele existiu mesmo), Platão buscava a "verdade essencial das coisas". A idéia da parábola, então, parece ser mostrar o processo do conhecimento. Mostrar a visão de mundo de uma pessoa que vive de senso comum, em contraponto com a do filósofo, na sua eterna busca pela verdade.

Só pra constar, essa interpretação é... como poderia dizer... uma interpretação. O texto original se encontra na obra A República e é um diálogo entre Sócrates e alguns interlocutores.

Essa idéia é muito aproveitada por ai, como Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley), Matrix (Andy Wachowski e Lana Wachowski), A Caverna (Saramago), Dark city (ótimo filme de Alex Proyas), por ai vai...

Daria pra usar isso tudo pra explicar a foto, caso e escolha tivesse sido consciente, e parecendo convincente? Acho que é forçar um pouco, né?

27 janeiro, 2010

Era dos extremos, ou Amsterdam



Mais um da série Diário de Bordo, esse deve ser pequeno (ou não), porque foi de uma viagem na qual passamos por vários países, poucos dias por país. Vão vir outros posts com o tempo, dos demais países...


Em algum momento lá, acho que num albergue, alguém me disse que o Tribunal Internacional de Justiça se encontra em Haia, na Holanda, por um motivo: 

"se alguma coisa de outro lugar do mundo fosse julgada por um holandês e fosse considerada como algo ruim devido à valores preconcebidos, então essa coisa provavelmente estaria muito errada mesmo."


Essa afirmação tem cara de lenda urbana, de teoria da conspiração, mas pela minha experiência poderia bem ter ser verdade.

Que cidadezinha cosmopolita: bares de todos os lugares, sons de todos os lugares (ouvi muita música brasileira, por exemplo), pessoas de todas as etnias, comportamentos dos mais diversos.

Você anda pela rua e vê casas de prostituição aos montes, com vitrines nas calçadas nas quais as garotas se promovem, perto de sex shops vendendo coisas que nem tenho coragem de escrever aqui ("coisas" essas também expostas nas vitrines), perto de igrejas das quais saem famílias felizes e contentes de mãos dadas com suas crianças. Isso tudo em um lugar lindo, às margens do rio Amsta, com gôndolas passeando. Ahh.. nas ruas com as vitrines, as pessoas passeiam, inclusive casais e mulheres desacompanhadas... alguns só passeando, outros olhando como num shopping (de novo, inclusive casais e mulheres desacompanhadas).





Você vê um "Museu da tortura", com equipamentos de tortura os quais nem tenho coragem de descrever aqui, em frente a uma exposição de flores lindas (especialmente tulipas), e próximo a uma grande fábrica de cerveja que também é um local de visitação.


Você vê bares naturebas, só vendendo suco, e bares pra fumantes, e bares pra não fumantes, e bares com maconha liberada (e no cardápio: forte, fraca ou média? já enrolada ou não?).



Você vê bicicletas, muitas bicicletas, coexistindo com carros. Bicicletas de executivos, bicicletas com lugar pra bebês, bicicletas de esportistas... todos os tipos.



Saímos pra passear num parque num dia normal, de semana e fora de temporada. Várias pessoas caminhando, lendo, bebendo, fumando (produtos legalizados aqui no Brasil ou não). O clima parece um feriado eterno.


No albergue: quartos mistos (homens e mulheres), banheiros mistos (inclusive pro banho). 

Na praça, mictórios públicos nos quais você se alivia vendo o movimento, já que o muro é da altura do peito pra dar pra ver a praça.


Na minha busca por coisas locais, tentei perguntar qual seria a comida típica de Amsterdam e não consegui saber. São tantas coisas de tantos lugares diferentes que os "locais" não entendiam dirteito minha pergunta. Achamos feijoada, por exemplo.


E é um lugar de putaria, desreipestoso? Não... claro que gente bacana e gente mala tem em todo lugar do mundo, mas no geral é um lugar tranquilo. O sexo e as drogas não tem a conotação que têm aqui, é normal. É algo natural do ser humano, então não é visto como sendo marginal. Faz parte, tá integrado. Pra turistas pode ser meio auto-destrutivo, excesso de liderdade tem que vir acompanhado com aumento de responsabilidade, como diria o bom e velho titio do homem aranha.

Um bom lugar... gostaria de voltar algum dia. Quem sabe alugar uma bike e passear pela holanda... ver algum moinho e umas tulipas. 


De novo, só pra reforçar: passei poucos dias lá. É claro que defeitos se vê com o tempo, e é claro que o clima (tempo ensolarado e não muito quente) e a baixa temporada me ajudaram. São impressões extremamente pessoais...




24 janeiro, 2010

Avatar, cinema 3D, Willian Castle & torrents


Avatar

Repensei minhas prioridades e, apesar do preconceito, acabei acatando a sugestão do Rolo e coloquei Avatar na lista dos "a ver". Pensando bem, se for pra ver um filme desse tipo, que seja no cinema e em 3D. Senão nem ia acabar vendo.

O filme? Roteiro fraquinho, mastigado, sem maiores surpresas. Interessante a crítica ao imperialismo e tals, mas achei bem pouco sutil...  Achei um pouco forçada a parte natureba. E achei longo, muito longo... Eu cortaria muito do primeiro ato, e aumentaria um pouco o uso dos efeitos na batalha final, parece que foi feita meio às pressas. Ironicamente, bem num filme 3D os personagens são bem unidimensionais, previsíveis, rasos. A Sigourney  ainda tem uma certa profundidade, dualidade, sei lá... o protagonista é mto ruim hehhe
Normal, esperava isso dum filme blockbuster.

MAAAAS, a imersão causada pelo 3D especialmente cuidadoso e discreto (nada de facas e mandibulas voando para cima da galera) valeu o ingresso (que foi bem caro, aliás). Tem algumas cenas nas quais você se sente parte do filme, como uma ao final em que vários soldados estão sentados ouvindo o general (ou capitão, sei lá): você sentado no cinema se sente um deles. O universo criado ficou bem bacana, bem alienígena mesmo.

Mais um detalhe: mesmo sendo fã de ficção/terror, não me lembro de muitos filmes que mostrem o ser humano como sendo o alienígena invasor... acho que só lembro de um, o Fantasmas de Marte (2001), do John Carpenter, com seu alien "Marilyn Manson".



Cinema 3D versus torrents

Tava pensando (tinha que ter uma viagem no post, claro)... Será que finalmente recussitaram o 3D pra trazer as pessoas de volta ao cinema na era dos torrents? Se foi, parece que funcionou, a fila de ontem que o diga, dando voltas (e a fila pra sessão das 11, logo depois, não tava diferente). Tô curioso pra ver como o Tim Burtom vai usar esse recurso no seu Alice no País das Maravilhas.. . já gosto do visual dos filmes dele em 2D :). 

Será que vão começar a investir em outros valores agregados pra levar as pessoas às salas do cinema? Seria legal...


Um pouco de história

Estava pensando que isso de 3D e tals não é novo, mas não pegou antes. Assisti, por exemplo, o "Freddy's Dead / The Final Nightmare", supostamente o último filme do Freddy Krueger,  em 91, em 3D num cinema em Ribeirão Preto. Eu e mais 3 amigos na sala apenas, foi divertido :) Mais além, o video-game master system já tinha óculos 3D

Posso ir mais longe no tempo, me vem à mente o Willian Castle, papa das produções B (que adoro!) nas décadas de 50/60.

Castle notabilizou-se por inventar uma série de truques para atrair espectadores: criou um seguro de vida para promover Macabro (Macabre, 1958); em Força Diabólica (The Tingler, 1959), colocou campainhas debaixo das poltronas, acionadas nos momentos de maior tensão; para A Casa dos Maus Espíritos (House on Haunted Hill, 1959) inventou um processo chamado "Emergo", que fazia com que esqueletos de verdade circulassem pela sala de exibição; distribuiu óculos que permitiam aos espectadores ver os fantasmas de 13 Fantasmas (13 Ghosts, 1960); em Trama Diabólica (Homicidal, 1961) colocou um intervalo de quarenta e cinco segundos, para que os mais nervosos pudessem ir embora caso quisessem.

Mestre na arte da promoção, Castle dirigiu dezenas de filmes, desde terror e suspense a westerns e séries policiais, mas, ironicamente, seu momento mais importante foi como o produtor de O Bebê de Rosemary (Rosemary's Baby, 1968), dirigido por Roman Polansky.

Enfim, apesar das suas tentativas, não deu certo. Talvez o público não estivesse preparado. Talvez fosse caro fazer essas brincadeiras, sendo que as pessoas iriam no cinema anyway

Tem um filme bacana, Matinee (1993), que faz uma homenagem explícita. através de um dos personagens -  Woolsey (John Goodman), ao Willian Castle,

Tenho expectativas de que ações parecidas venham a ser aproveitadas pelas produtoras num futuro próximo... ou não...






22 janeiro, 2010

Biotech is Godzilla


Hoje acordei com a MTV tocando umas musiquinhas suaves, boas pra começar a sexta-feira: logo de cara, Sepultura, com Territoty. Dai continuei ouvindo Sepultura no caminho, claro, e agora estou em Biotech is Godzilla. Pela primeira vez prestando mais atenção na letra. 


Como eu pelo menos nunca tinha me tocado na letra, resolvi compartilhar. É até moderna pros dias de hoje ainda, com essa onda de conferências sobre aquescimento global, comitês de ética em biotecnologia e etc...


Rio Summit, '92
Street people kidnapped
Hid from view
"To save the earth"
Our rulers met
Some had other
Secret plans

No... no... no... no...

Biotech
Biotech
Biotech
Say what?

Strip-mine the Amazon
Of cells of life itself
Gold rush for genes is on
Natives get nothing

Biotech
Biotech
Biotech
Is Godzilla

Mutations cooked in labs
Money-mad experiments
New food + medicine?
New germs + accidents!
Like Cubatao
"World's most polluted town"
Air-melts your face
Deformed children all around

Bio-technology
Ain't what's so bad
Like all technology
It's in the wrong hands

Cut-throat corporations
Don't give a damn
When lots of people die
From what they've made

Biotech
Biotech
Biotech
Is A.I.D.S.?

Stop!!!

19 janeiro, 2010

Mercadores de sonhos, na lua!


No final de semana deu vontade de ver ficção científica e, depois de uma pesquisada na “blogsfera” e de uma conversa com o Rolo, cheguei a dois candidatos: “Sleep Dealer” e “Moon”.
 
Não me arrependi das escolhas, embora tenha preferido Moon, gostei bastante dois dois.

Ficam aqui as duas dicas... 

Quando eu for vendo filmes bons que não são anunciados na grande mídia, vou ver se começo a deixar as dicas aqui...
 
Sleep Dealer

Ficção meio Low Budget de um (acho que) mexicano chamado Alex Rivera. Ganhou dois prêmios em Sundance, como bom low-budget que é. Mistura um pouco alguns conceitos de Matrix e acredito que até de Blade Runner, com blogs e redes sociais, mas a idéia central me pareceu fazer uma crítica social através de uma sociedade futura fictícia. Em dado momento um personagem diz que os Sleep Dealers seriam o sonho americano: ter mão de obra barata dos latinos fazendo o trabalho pesado, mas sem precisar da parte ruim que seria ver essas pessoas. Interessante um filme de ficção científica futurística começar mostrando uma região seca e pobre do México, sem nada muito high tech. Sempre acho uma experiência legal ver bons filmes que não sejam estadunidenses. Não tenho nada contra os filmes americanos, que fique claro (são os que mais assisto), mas como justamente é o que mais vejo, é legal sair da rotina vendo algo além, feito em outra cultura, falando outras linguas, essas coisas...

 
Moon

Estréia (de novo, “acho que”, preguiça de fazer buscas na net hoje) do filho do David Bowie no cinema. Também faturou uma estatueta, mas no Festival de Cinema de Edimburgo. Filme de suspense, meio tenso, que mostra um pouco da vida de um funcionário que tem q ficar 3 anos sozinho na lua, apenas acompanhado de serventes computadorizados com os quais se forma uma relação de amizade. Achei muito massa as expressões do robô Gerty serem criadas apenas com “emoticons”, mesmo assim dá pra pegar legal o que ele sente (sente?). Provavelmente a atuação dele é melhor do que a do Seagal hehhe. Aliás, falando em atuação, Sam Rockwell segura legal o filme atuando sozinho (ou não) o tempo todo, tendo apenas a voz do Kevin Spacey como companhia. Mas voltando ao enredo... depois de um tempo, esse personagem acha que não está sozinho. Deve ser imaginação, ou não heheh. A trilha sonora do Clint Mansel (sempre gosto das trilhas dele) é eficiente. Aliás, praticamente não há músicas no filme (digo, uso de músicas de verdade, além da trilha composta para as cenas). Em sendo do filho do Bowie, eu tava com esperanças de ouvir um “Life On Mars”, "Ziggy", ou um “Major Tom”. Pensando bem, talvez isso fosse muito óbvio. Muita referencia a 2001, muita mesmo, e um pouco a Solaris e um pouquinho ao Alien. (<SPOILER ALERT>, não continuem se forem sensíveis a alguém estragar as surpresas). Indiretamente, o filme faz reflexões sobre clonagem humana, direitos de organizações sobre clones criados para determinado fim. Interessante que os clones têm personalidades diferentes (tanto em quanto são "nervozinhos" quanto no lance de desejarem ir pra cidades bem diferentes caso voltem pra terra). Gostei também da brincadeira com o HAL do 2001: enquanto no 2001 você vê uma inteligência artificial se deturpando até se tornar o vilão, aqui você vê uma visão menos pessimista com o Gerty se humanizando e ajudando o protagonista.

16 janeiro, 2010

O método do opressor

De tanto ver agir o opressor, na hora em que o homem tem oportunidade de ser protagonista da História ele age igual ao opressor porque não conhece outro método.

Paulo Freire

14 janeiro, 2010

Inferno

Comentário do  Vincent Liopard em um outro post, que acabou de ser promovido a post:


"- O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço."
(Marco Polo)